Porque uma ciclovia nas marginais é tão importante?
12/11/2009
Este texto busca subsidiar os defensores de ciclovias nas marginais e mostrar o quão elas podem, não trazer apenas benefícios aos ciclistas, mas inspirar a forma que planejamos nossas cidades. Fiz uma divisão por tópicos e usei como base minha experiência, dados e pesquisas realizadas nas Marginais Pinheiros e Tietê. Apesar do foco ser São Paulo, outras cidades podem usar como exemplo já que possivelmente vivem situações semelhantes.
Há Demanda
Embora não concorde com essa história de só construir ciclovia onde há demanda (e não porque ela está inserida em um planejamento de cidade), hoje há uma enorme demanda de ciclistas em ambas as marginais de São Paulo.
Já fiz duas contagens de ciclistas nas marginais, uma em abril desse ano, na pista da Marginal Pinheiros entre a Ponte do Morumbi e João Dias, sentido Interlagos, por volta das 18h00. Em um dia chuvoso e num espaço de uma hora fotografei cerca de 80 ciclistas.
Agora em outubro de 2009, voltei a marginal e fiz nova contagem. Dessa vez fiquei das 6h30 até as 8h30, sobre a ponte João Dias no sentido Castelo Branco, registrando todos os ciclistas que avistasse, seja cruzando a Ponte João Dias, ou na Marginal Pinheiros. Os números:
Não consegui fotografar todos os ciclistas, principalmente os que passavam do outro lado da ponte, ainda mais porque os que trafegavam por lá, geralmente eram mais velozes. Levando em conta as dificuldades dos ciclistas, tudo leva a crer que com facilidades, esse número dobraria facilmente, portanto essa é uma prova clara de demanda reprimida positiva (ao contrário dessa outra aqui, bem negativa).
Conectividade
Se as Marginais são os melhores corredores para os carros, porque não seriam para os ciclistas? Há um número considerável de empresas próximas as marginais, principalmente da Marginal Pinheiros. Além disso, a maioria dos ciclistas moram de um lado da ponte e trabalham no outro. Atualmente eles atravessam as perigosas pontes e quando não usam as marginais, utilizam as ruas dos bairros.
São centenas de pontos de interesses próximos as marginais
Se criada ciclovias em ambas as margens dos rios, com vários acessos, os ciclistas podem acessar a margem pelo ponto mais próximo da sua casa, fazer a travessia pelas margens e depois sair pelo acesso mais próximo ao seu destino. Isso pode até reduzir a distância que alguns ciclistas atualmente percorrem.
Relevo
Acidentes geográficos não são impeditivos para o uso da bicicleta, mas a ausência deles é um fomentador. A cidade de São Paulo é repleta de várzeas que infelizmente são usadas para pistas de carros. Por mais inóspito que possa ser, ainda sim é mais convidativo ao ciclista pedalar por essas avenidas. Se realmente existe um interesse do Poder Público de fomentar o uso da bicicleta na cidade, o primeiro passo da prefeitura é criar infraestrutura em todas nossas várzeas.
Segurança
Se você é daquele grupo que considera pedalar nas Marginais um ato suicida, tem que ser um dos primeiros a defender ciclovias nas Marginais. Apesar dos números não serem alarmantes, já ocorreram mortes de ciclistas nas marginais. De 236 mortes ocorridas nos últimos 3 anos, apenas 7 ocorreram nas marginais, sendo 2 na Marginal Pinheiros e 5 na Tietê (essa última que mesmo com a reforma não terá ciclovia como manda a lei. No máximo uma "carrovia compartilhada").
Com transito desse jeito não chega a ser perigoso
Com a ciclovia, pelo menos nas marginais esses números seriam zerados, além do fato da ciclovia estimular aquele ciclista que atualmente não anda por medo, por achar inseguro, o que não deixa de ser verdade.
Consciência Ecológica
A ciclovia nas marginais, principalmente a projetada no Rio Pinheiros, irá aproximar o ciclista, consequentemente o cidadão, do seu rio. Lá ele verá o quanto a cidade pode ser bonita, apesar de caótica e como seria ainda mais bela caso do Rio estivesse despoluído. Verá também em alguns casos, ele tem uma grande parcela de culpa na poluição do Rio, quando observar que o mesmo lixo que ele atirou na rua foi parar no rio.
30% de todo lixo dos rios vem das ruas de São Paulo
A questão dos rios está ligada diretamente na importância que o saneamento básico "deveria" ter na sociedade. Infelizmente saneamento básico não é considerada uma prioridade pela população, creio que isso se deve a falta de informação. Quanto mais de perto vemos o problema, somado a mais informações e maior a pressão da sociedade, tenho certeza que o governo se sentirá obrigado a tratar a questão como prioridade. É como o trânsito, como vivemos o problema de perto diariamente, é mais fácil pressionar por solução.
Ainda no caso da Marginal Pinheiros, será um excelente contraponto a situação do Rio Tietê, pois na mesma cidade, com distância de alguns quilômetros, teremos duas opções de políticas públicas em relação aos nossos rios para comparar. De um lado o Rio Tietê, com 26 pistas para carros, margens canalizadas e proibitivas a população. Do outro o Rio Pinheiros com suas margens conservadas, um imenso parque linear e acessível a população. Tirando o estado das suas águas, teremos dois rios bem diferentes, nesse caso qual seria a opção da população?
Qual Rio está numa melhor situação, O Pinheiros...
... ou o Tietê?
Já consigo prever o debate público que irá ocorrer com a abertura da Ciclovia da Marginal Pinheiros daqui a alguns meses. Já estou vendo milhares de ciclistas da Ciclofaixa invadindo a ciclovia. Todo mundo espantado com uma beleza estonteante, que estava tão próxima e ao mesmo tempo tão inacessível. Será impossível não ver indignação com o estado do Rio e já vejo na mesma semana o governo dando explicações sobre seus planos para resolver o problema e quem sabe, garantindo o dinheiro para o termino do Projeto Tietê.
Está difícil encontrar algum prejuízo que uma ciclovia nas marginais possam trazer, mas benefícios... A todos, até mesmo aos "pais da criança". Aliás, prefiro mil vezes ver essa ciclovia nas campanhas políticas de 2010, do que as obras faraônicas das Marginais do Rio Tietê.