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Imigrantes e Ecovias. Uma via “ecológica” exclusiva para veículos não ecológicos
07/07/2008

Carros, motos e as bicicletas por onde passam?
Cidadão, saiba que se você estiver em São Paulo e pretende ir a Santos, sem usar motor e sem poluir, não conseguirá. Dentre inúmeros desrespeitos as leis, seja da PRE (Polícia Rodoviária Estadual) e da Ecovias, até o mais sagrado de todos os seus direitos você será privado, o de ir e vir. Agora se estiver degradando e poluindo com seu carro... Nesse caso você pode tudo!!!
Dentro das mentes maravilhosas que existem na Bicicletada, inspiradas na Ciemmona, (ou Massa Crítica Interplanetária) uma Massa Crítica que ocorre uma vez por ano em Roma, quando centenas de ciclistas pedalam até o litoral, surgiu a idéia de realizar uma versão nacional em dezembro de 2008, possivelmente no dia 06. Centenas (e por que não milhares?) de ciclistas saindo de São Paulo, na nossa Bicicletada Interplanetária com destino ao litoral.

Foto Chris Carlsson
Para saber exatamente o que iríamos encontrar na “ecovia”, resolvemos realizar um prólogo, uma pequena Massa Crítica no dia 05 de julho de 08, simulando como seria e quanto tempo precisaríamos para chegar na praia. Nos reunimos na Praça do Ciclista, local de partida da Bicicletada Interplanetária de São Paulo e saímos às 7 da manhã num grupo de 6 ciclistas. Como deverá acontecer no dia dessa Bicicletada, a Massa aumentou durante o trajeto, na Vila Mariana mais 4 ciclistas se juntaram a nós e na primeira parada, no Posto de Gasolina que há depois do pedágio da Imigrantes, mais 3 ciclistas fizeram parte da massa.

Até a rodovia de interligação entre a Anchieta e a Imigrantes, é comum o tráfego de ciclistas, mas foi só passar por ela que encontramos a placa mais imbecil que já inventaram, a de “proibido ciclistas”. O problema não esta no simples fato de proibir, mas o de proibir sem dar nenhuma outra alternativa, ou seja, restrição total do direito de ir e vir, assegurado pela constituição brasileira.
Todo ciclista experiente sabe que além da barreira física de 1000 metros de altitude que separa o Planalto Paulistano do nosso litoral, ainda temos uma segunda barreira chamada de “Ecovias”. Empresa que se diz “ecológica” resolveu simplesmente não dar acesso a veículos ecológicos em sua concessão. Uma verdadeira aula de greenwashing para enganar motoristas desinformados.
Desde 1996 eu viajo de bicicleta e por inúmeras vezes desci a Serra do Mar para chegar no litoral, mas infelizmente, todas minhas tentativas foram feitas na base da clandestinidade, devido a essa proibição absurda. A alegação é a “falta de segurança” mas ao invés de criarem uma estrutura que dê essa segurança aos ciclistas, eles preferem simplesmente impedir o acesso de bicicletas mesmo que para isso eles tenham que agir contra as leis.
A partir de 1997, entrou em vigor o novo código de trânsito brasileiro e a principal conquista dos ciclistas foi o art. 58 que descrevo abaixo:
Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.
Segue a definição de Vias Rurais:
VIA RURAL - estradas e rodovias.
Ou seja, a Imigrantes é uma Via Rural de pista dupla, provida de acostamento em praticamente toda extensão, exceto nos túneis, nesse caso, conforme diz a lei, temos que trafegar pelos bordos da pista, com preferência sobre os demais veículos.

Foto Fahrad
Mas em nosso prólogo, bastou passar pela Interligação para um carro da Ecovias, que estava próximo ao acostamento, atravessar “desembestadamente” um terrão, para tentar bloquear perigosos ciclistas que ameaçavam a paz dos poluidores motorizados. Mais à frente, próximo ao Rancho da pamonha fomos parados por policiais militares.

Disseram que por causa da placa de “proibidos ciclistas” não poderíamos seguir. Perguntamos qual seria a opção e nos disseram que deveríamos pegar a Estrada Velha de Santos. Além dessa estrada estar a uns 20 km daquele ponto, depois que ela foi recuperada em 2004, só é permitido a descida a pé e mesmo assim com a companhia de monitores.
Pedimos aos policiais que nos mostrassem a lei, resolução, norma, qualquer coisa que nos impedisse de trafegar ali. Perdidos não sabiam o que dizer, foi quando decidimos fazer o trabalho, que deveria ter sido realizado por seus superiores, e apresentamos o CTB aos soldados. Meio sem saber o que fazer, nos disseram que tinham ordens superiores de apreender as bicicletas se necessário. Pedimos então o embasamento legal para realizar essa apreensão.
Esse é um lado bom da Bicicleta ser ignorada pelos nossos governantes. Nem se deram ao trabalho de criar uma regulamentação para oficializar a apreensão de uma Bicicleta, pelo menos por enquanto. PMs meio sem saber o que fazer, se aproveitaram do fato de um caminhão não ter parado quando solicitado, e no melhor estilo “Chips”, saíram com duas viaturas atrás do fujão. Anda pediram para aguardarmos a volta deles, é mole?
Depois de uns 15 minutos, quando estávamos quase desistindo de esperar, segundo Imigrantes a baixo, avistamos uma viatura de ré, no acostamento, vindo em nossa direção. Quando ele chegou a nós, desceu um soldado com o Código de Transito em mãos dizendo, “leia só o Artigo 59”.
Art. 59. Desde que autorizado e devidamente sinalizado pelo órgão ou entidade com circunscrição sobre a via, será permitida a circulação de bicicletas nos passeios.
Veja no código a definição de passeio:
PASSEIO - parte da calçada ou da pista de rolamento, neste último caso, separada por pintura ou elemento físico separador, livre de interferências, destinada à circulação exclusiva de pedestres e, excepcionalmente, de ciclistas.
Aqui fica a minha dúvida, será que o nosso soldado da PM confundiu a palavra “passeio”, do código com um eventual “passeio de bicicleta”?
Logo depois apareceu uma outra viatura, também de marcha ré, na contra mão, e dela sai um sargento, que infelizmente não consegui pegar o nome, dizendo: “Não vai descer e pronto, se eles insistirem chama um caminhão e apreende TODAS as bicicletas”.
Tentei argumentar algo mas ele me deu as costas, largou a bomba não mão do soldado, entrou na sua viatura e seguiu, agora não mais na contramão. Cansados de abaixar a cabeça para todo tipo de imposição sem embasamento legal, estávamos dispostos a pagar para ver. O soldado que ficou disse, “tenho que resolver um assalto agora, eu não posso deixar vocês descerem, mas vou ter que sair e vocês façam o que achar melhor”.
Resolvemos que desceríamos e quando já estávamos a estrada abaixo, mais uma viatura vindo pelo acostamento, na contramão, dessa vez não de ré, mas de frente mesmo. Era o segundo soldado e com muita educação nos pediu: “Por favor, eu sei que vocês estão certos, mas voltem e desçam pela Estrada de Manutenção”.
Ou seja, o “superior” largou a bomba na mão do soldado, pois se desse “merda” a corda estouraria na mão do mais fraco mesmo. Resolvemos aceitar então o pedido dele, o soldado voltou com sua viatura uns 500 metros e fez um “falso comboio”, reduzindo a velocidade dos carros na rodovia. Assim o grupo pode fazer a travessia até o meio da pista com segurança. Depois parou o trânsito na outra via para completarmos a travessia.

Foto Fahrad
Ao contrário da Imigrantes, a estrada de Manutenção é uma via que exige cuidados, destreza do ciclista, além de um bom equipamento. Apesar de ser uma via que leva ao litoral, ou seja, para baixo, como ela circunda a serra, a via possue alguns aclives que exigem bastante esforço do ciclista. Para realizar uma descida num grupo grande, com mais de 200 ciclistas, definitivamente não é uma boa opção.

Foto tirada na viagem pela Manutenção de Junho de 2007
Mesmo assim o visual não deixa de ser maravilhoso, com uma melhor sinalização e algumas proteções para evitar acidentes, a Estrada de Manutenção da Imigrantes poderia servir como uma excelente alternativa para acessarmos o litoral de bicicleta.
Mas até aí temos um problema. O final da Estrada de Manutenção é justamente em uma das entradas do Parque da Serra do Mar. Essa era a minha terceira descida por essa estrada, e nunca tive problemas para passar por essa cancela. Dessa vez fomos parados e avisados que não seria mais permitido a travessia sem autorização da diretoria do parque.

Viagem pela Manutenção de Junho de 2007
A justificativa é que uma ciclista “levou um capote” na descida e processou o estado. Então, ao invés de criar um sistema que dê segurança aos ciclistas, para variar, resolveram proibir o acesso de todos.
Apesar dos pesares, conseguimos descer e vencemos a Serra. Formamos um grupo muito heterogêneo, mesclando ciclistas experientes e marinheiros de primeira viagem. Ainda com a presença de duas garotas que também debutaram no cicloturismo, todos chegaram a Santos com relativa tranqüilidade. Foram 90 km pedalados em 8 horas, sendo 4 delas em cima da bicicleta. Ou seja, a Bicicletada Interplanetária é totalmente possível e acessível a todo tipo de ciclista. Reunir numa Bicicletada uns 200, 500 ou mesmo uns 1000 ciclistas é algo que possivelmente teremos no dia 06 de dezembro de 2008.

Qualquer pessoa pode vencer esse desafio, em breve criarei uma página com dicas de como preparar sua bicicleta e como se preparar para essa viagem. Agora é só começar a contagem regressiva e aguardar a largada para fazer parte da massa.
André Pasqualini
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