 |
Sorocaba. Uma futura Bogotá Brasileira?
08/09/2008

Sorocaba, uma cidade que tem tudo para revolucionar o conceito de mobilidade urbana.
A cidade de Sorocaba, que esta a 90 kms da capital do Estado, com 600 mil habitantes pretende causar uma revolução cultural e esta usando a Bicicleta como “instrumento”.
Ao chegar à cidade demos de frente a uma ciclovia que beira o Rio Sorocaba. Não é um rio “limpíssimo”, mas vi pessoas pescando nele. É muito agradável pedalar longe dos carros e ao lado de um rio. Isso só reforça meu sonho de pedalar nas margens dos rios Pinheiros e Tietê. Prefiro mil vezes ter que agüentar o mau cheiro do que pedalar com o barulho e fumaça dos carros.

As inúmeras placas sinalizando “proibido motos” refletem a enorme preocupação dos motorizados em relação às ciclovias. A cidade fica muito mais bonita com o tom do vermelho da ciclovia combinando com o verde que ainda é abundante na região.
Notei que as regiões onde as ciclovias foram construídas, não há carência de espaço, ou seja, elas foram construídas sem a necessidade de tirar espaço dos carros. Pode parecer uma virtude, mas eu enxergo de outra maneira. Parece que estão usando as ciclovias para tirar as bicicletas das ruas, deixando para seus “donos”, os carros.

Isso fica claro em um momento onde a falta de espaço fez com que a ciclovia fosse “espremida”, mal dando para passar dois ciclistas, muito aquém da largura mínima de 2,20m, sugerido pelo Livro Bicicleta Brasil, produzido pelo Ministério das Cidades. Havia espaço até para uma mudança do viário nesse determinado trecho, empurrando a faixa dos carros para o espaço abundante no canteiro central, mas nem isso foi feito.
Outro ponto intrigante é em relação aos finais das ciclovias. Não vi uma preocupação com o acesso a ela, tão pouco com o fluxo do ciclista que chega ao seu final. Uma acabou numa calçada e por lá continuamos pedalando, pois saímos no sentido contrário dos veículos, outra termina com um degrau. Sinalizações de solo, placas intuitivas, fariam o sistema cicloviário parecer integrado com o atual sistema viário.

Agora o que mais me preocupou foram os cruzamentos. Ao contrário do que diz o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o veículo maior tem SEMPRE que dar a preferência ao menor e não o contrário disso. Ali observei uma preocupação enorme para que a ciclovia “não atrapalhe os motorizados”. Ao invés dos sinais de “PARE” estarem sendo mostrado para os motorizados, todos os avisos são para os ciclistas. Mesmo quando, junto com o cruzamento da ciclovia há uma faixa de pedestres.

Tudo perfeito, cruzamento com "faixa lombada", para reduzir a velocidade dos motorizados, exceto pelo detalhe, o "PARE" que deveria estar direcionado aos carros esta para os pedestres e ciclistas.
Perderam uma excelente oportunidade de educar os motorizados para que eles passem a respeitar a faixa de pedestres, mesmo sem sinal luminoso. Mas infelizmente Sorocaba não foge muito da realidade da maioria das cidades brasileiras, onde os pedestres é que dão preferência aos carros. Foi triste ver um casal de idosos tentando atravessar uma rua sem que fossem “notados” pelos carros.

Perguntei se o Prefeito anda de Bicicleta, me disseram que apenas em eventos políticos e não no dia a dia. Creio que esse prefeito tenha inúmeras boas intenções, mas jamais ele irá transformar Sorocaba numa “Bogotá Brasileira” se não fizer exatamente como fizeram os políticos de lá. O Enrique Peñalosa ia trabalhar de Bicicleta e seus secretários, quando não andavam de bike, usavam o transporte público. Só usando é que eles vão conseguir enxergar os erros do sistema que eles estão criando.
Sorocaba tem sim muitas virtudes, a iniciativa é mais que louvável, mas não se faz omelete sem quebrar ovos. Claro que muitos motorizados serão contra “perder” seu tempo, para dar segurança aos ciclistas e pedestres. Mas é exatamente esse o papel do estado, mostrar para a população que antes da “fluidez” vem a segurança, a vida das pessoas.

Usar a bicicleta para mostrar que a vida é mais importante que a pressa. Aproveitar o projeto para divulgar as leis de trânsito e mostrar aos motorizados o quanto de mal eles fazem para a cidade e o que eles podem fazer compensarem.
Seja deixando seus carros em casa e contemplando tudo que a cidade tem a oferecer a pé, de bicicleta ou de transporte público, ou mesmo valorizando a vida do próximo e não apenas a sua e de sua família. Apesar das críticas, a iniciativa de Sorocaba tem que ser aplaudida, mas sempre que possível aperfeiçoá-la.
André Pasqualini
|
 |