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WNBR 2009 SP – Muito dinheiro público para “tentar” reprimir a nudez não erotizada
18/03/2009
"Aqui não é Sambódromo. Não estamos no carnaval. Se alguém mostrar o bumbum, pode se detido" Fonte G1
Essa foi à frase do Major da PM José Antônio Senaubar que comandou a operação.

Foto Carlos Alkmin
Ou seja, ta liberado a nudez no carnaval galera, sugiro aos “organizadores” do WNBR que alterem a data do evento do próximo ano.
Hipocrisias a parte, essa edição do WNBR em São Paulo, no meu ponto de vista foi um sucesso. A idéia é simples, nosso povo não adora a nudez? Vários programas de televisão não exploram a nudez simplesmente porque dá Ibope? Os ciclistas não estão tentando há tempos passar uma mensagem em relação aos seus direitos? Grande parte da mídia não usa a técnica da Seringa Hipodérmica para convencer a massa sobre algum assunto que lhes interessam? Qual o problema dos ciclistas fazerem o mesmo?

Usar o corpo para passar mensagens foi a solução encontrada por eles.

Foto Carlos Alkmin
Mas e os possíveis riscos dessa exposição, como o caso da garota que ficou nua durante o Dia Sem Carro de 2008 em Curitiba e foi demitida do núcleo de pesquisas da qual participava na universidade. Mais simples ainda, como estão apenas interessados nos nossos corpos, basta se esconder através de mascaras. Nelas coloquem frases para falarem em silêncio.

Foto Fahrrad
Mesmo assim havia nessa Pedalada Pelada, muitas pessoas dispostas a ficarem completamente nuas e até serem detido se necessário, justamente para questionar o conceito de “obsceno” dado pelas nossa autoridades e por boa parte da população.
Hoje analisando melhor a situação, creio que no ano passado, a própria PM não imaginava que alguém tivesse coragem de ficar nu em público. Mas no desenrolar da pedalada, quando viram que havia umas 50 pessoas nuas, a polícia resolveu intervir, prendendo apenas um ciclista (eu), com o claro objetivo de dispersar a multidão.
A tática deu certo, os ciclistas foram para a delegacia e a mídia acabou falando mais da prisão do que do protesto em si. Já nesse ano a coisa foi bem diferente, quando cheguei na praça havia mais de 20 motos da PM estacionadas na calçada, alguns PMs de bike, uma base comunitária móvel, várias viaturas e um exército de PMs prontos para impedir a nudez, sem tolerar nem um “bunda-lele”.

Foto Evelyn Araripe
Detalhe, todos os veículos estacionados na calçada e não na rua como manda a lei. Isso demonstra claramente que, entre atrapalhar os motoristas e os pedestres, já sabemos qual é a opção que o estado acaba escolhendo. Bem, pelo menos o “agente da CET” que participou da Pedalada, fez o seu trabalho, multando todos os veículos parado de maneira irregular.

Ficaria muito feliz se nossa PM tivesse o mesmo empenho para coibir as infrações de trânsito como excesso de velocidade, motoristas que dirigem alcoolizados (ou alguém acha que ainda existe lei seca?), o desrespeito a faixa de pedestres, carros que param na calçada ou coisa do tipo. Sabia que nossa PM pode multar infrações de trânsito? Na verdade eles podem multar desde 2004 mas se tem algo raro de eu ver é um PM com talão de multas na mão.
Bem, enquanto vivermos num país onde estamos acostumados a ver políticos fazendo campanhas em igrejas, da mesma maneira que vemos políticos se envolvendo com prostituição e pedofilia, atitudes desproporcionais como essas, de desperdício de dinheiro público continuarão a acontecer infelizmente.
Mesmo com muitas pessoas dispostas a ficarem nuas, devido ao enorme aparato policial, começou a circular uma informação entre os ciclistas de que não era para tirar a roupa na Paulista. E que ao final dela, o pessoal dispersaria, indo cada um para um lado e todos se reencontrando no Monumento das Bandeiras em frente ao Ibirapuera.
A polícia tentou intervir escoltando a massa, causando um tremendo trânsito na região o que só demonstra que nossas autoridades não têm a menor idéia de como lidar com os ciclistas. Ao invés de deixar tomar o máximo de faixas possíveis e diminuir o tempo de permanência na via, os policias de moto (e não os de bike) criaram um “espigão” de uns 5 quarteirões, confinando os ciclistas em duas vias apenas.

Foto Carlos Alkmin
Com isso, além de prejudicar o trânsito na Paulista, como eles ditavam o ritmo dos ciclistas, muito mais lento do que em uma Bicicletada, interrompendo o fluxo da massa a todo instante, também prejudicaram a “fluidez” nas vias transversais, já que os veículos eram obrigados a ficar uns 3 lances de semáforo, até toda a massa passar, atrapalhando até quem apenas pretendia cruzar a Paulista.
Além disso, só eu presenciei 3 quedas (nenhuma com gravidade) de ciclistas devido à tentativa de pressionar a massa nas duas faixas da esquerda. Se a massa estivesse compacta, a fluidez seria maior e no máximo, teríamos uma velocidade média de 10 km/h dos carros na Paulista, nada do que eles não estejam acostumados a enfrentar no dia a dia da cidade.
Pois bem, a massa seguiu, próximo a Praça Osvaldo Cruz, os PMs interromperam a massa não sei pra que. Então a massa não agüentou esperar e seguiu, acessando a Rua Des. Eliseu Guilherme, que comumente é usada pela galera da Bicicletada para retorno. Ao final dela na Abílio Soares, a massa começou a dispersar. Uns seguiram em frente, outros voltaram para a Paulista, outros foram sentido Paraíso, cada um foi para um lado, causando uma tremenda confusão na PM.

Foto Thiago Biker
Eu segui com uma massinha pela Rua do Paraíso, Vergueiro, Joaquim Távora, passando por dentro do Parque do Ibirapuera, saindo em frente ao monumento das Bandeiras.

Chegando lá vi um mar de ciclistas, alguns fotógrafos da imprensa e nenhuma viatura da polícia, o que deixou os ciclistas mais a vontade para se manifestarem como quisessem.

Foto Thiago Biker

Foto Thiago Biker
De lá a massa seguiu pelas avenidas Brasil, Rebouças, Faria Lima até o Largo da Batata. Depois a massa resolveu passar em frente a casa do Kassab, por dentro de uma rua “privatizada” pelo Shopping Iguatemi, retornando tranqüilos (e ainda pelados), até a Praça do Ciclista.

Durante todo o passeio fomos recebidos com risos e acenos pela grande maioria de ciclistas e pedestres. Muitos acham que protestos como esses “incomodam” os motoristas. Pode ter sim um ou outro que se sinta incomodado, mas não é essa a reação da maioria dos motoristas. Pelo menos nas minhas interações durante as bicicletadas geralmente são positivas. Algo que venho reforçar a minha constatação foi um post de um motorista que foi pego de surpresa pela “Peladada” e resolveu mudar seus planos do sabadão para acompanhar a massa.

Venho notando também, por parte dos motoristas particulares, um aumento do respeito deles em relação aos ciclistas. Claro que há exceções, mas há muito mais cordialidade do que agressões gratuitas ultimamente. Creio que é justamente esse o principal motivo para a redução no número de mortes envolvendo ciclistas de 2007 (83) para 2008 (60 segundo estimativas da CET).
Apesar das poucas e algumas vezes desrespeitosas, críticas que essa parte mais atuante do movimento cicloativista recebe (infelizmente de muitos ciclistas), percebo que há muito mais apoio a essa linha de pensamento e ação do que de reprovação. Isso se reflete imediatamente nas constantes melhorias das condições dos ciclistas.
Hoje já temos várias estações do Metrô e da CPTM com Bicicletários, uma preocupação de várias subprefeituras na elaboração de planos cicloviários locais, um aumento na procura de grupos de ciclistas por pessoas buscando dicas para pedalar, sem contar o significativo aumento do número de ciclistas nas ruas da cidade.
Não me incomodo com críticas, acho até muito válidas, principalmente se são embasadas e inteligentes como essa aqui feita pelo blogueiro Mario Amaya no ano passado. Sinceramente creio que ele ainda continua não concordando com a ação, mas deve perceber que devido a experiência adquirida na outra “Peladada”, fez com que a desse ano conseguíssemos fazer com que a mídia falasse muito mais das causas do protesto do que da prisão como no ano passado.
Escrevi esse texto antes de ver o seu novo ponto de vista, que pode ser conferido clicando aqui.
Mas também não dá para agradar todo mundo, pois muitos naturistas devem ter ficado frustrados com a falta de coragem de muitos em ficarem nus na certeza de serem presos. Mas o mais importante de tudo isso é que colocamos um tema pra lá de importante em debate novamente e é disso que precisamos, de pessoas debatendo a mobilidade urbana e contestando essa preferência a fluidez motorizada que custa tantas vidas.
No ano passado me prenderam e acabaram com o passeio. Esse ano, ninguém foi preso e as pessoas conseguiram se manifestar como quiseram. Ano que vem como será? Pode ser como em Londres, onde mesmo também sendo proibido ficar nu, a polícia faz um acordo informal com os manifestantes e enxerga a nudez “dentro do passeio” como algo não obsceno e até acompanha os ciclistas dando todo suporte necessário.
Enquanto alguns fazem cybercicloativismo, milhares de ciclistas ou “bicicleteiros” para alguns, fazem o verdadeiro cicloativismo, quando pegam suas bicicletas que não valem mais de “50 pila” e enfrentam jornadas de até 40 km diárias para poder economizar até 250 reais por mês.
“Bora” pedalar galera, pelado ou com roupa pouco importa, pois nus é como nos sentimos pedalando nessa cidade?
André Pasqualini
Para ver mais notícias e fotos sobre o WNBR 2009, acesse a página oficial clicando aqui.
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