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Conheça o João Paulo, ele ia de fretado, mas agora vai de carro
28/07/2009

Estamos vivendo em São Paulo uma verdadeira guerra sendo travada entre a população e a prefeitura. Por um lado temos uma boa parcela da população que, de maneira inconsciente, luta para se livrar de todos os malefícios que os carros trazem. Do outro lado temos a prefeitura que, de maneira muito consciente, luta para que as pessoas continuem dependendo exclusivamente dos seus carros.
Nosso amigo João Paulo é um exemplo perfeito dessa luta. Há seis meses surgiu uma oportunidade para comprar um apartamento e vendeu seu carro para isso. A idéia era comprar um carro mais barato e financiado, mas seguindo os conselhos de uma amiga passou a usar o fretado. Infelizmente ele não imaginava que seu novo meio de transporte seria a “bola da vez”, ou seja, o novo vilão do trânsito eleito pela Prefeitura de São Paulo.
Para compreender melhor, existem dois tipos de usuários de fretados. Um grupo que mora em outras cidades fora da região Metropolitana, como Santos, Sorocaba, Campinas e trabalham em São Paulo.
O segundo grupo é formado por moradores de São Paulo e de sua região Metropolitana. Esses, em sua maioria, são pessoas que trocaram seus carros pelo conforto do fretado. Nele incluo minha mulher e também o nosso amigo Paulo.
Ele até tinha planos de, no futuro, adquirir um carro. Mas seria uma aquisição planejada, o carro seria um luxo, ou uma opção para os finais de semana e não como seu principal meio de transporte. Mal sabia que nosso prefeito viria a interferir diretamente em sua vida, sem deixar outras alternativas.
Sim, não há alternativas, ele mora próximo ao Campo Limpo e trabalha na Paulista, cerca de 25 quilômetros de distância. A primeira opção seria o transporte público, o ônibus Inoccop Campo Limpo – Estação da Luz, que segue pela Francisco Morato e Rebouças. Seria uma hora e meia de aventura, totalmente espremido e de pé.
Diria então o senhor prefeito em resposta aos seus súditos motoristas, que desconhecem a realidade do transporte público:
"mas temos corredor de ônibus nas avenidas Rebouças e Francisco Morato”
Mal ele sabe (ou seria bem ele sabe?) que esse corredor é péssimo. Citando apenas um contratempo, qualquer ônibus leva em média 15 minutos para passar pelo ponto da Rebouças com a Faria Lima, enquanto seus súditos motorizados tem uma passagem subterrânea. Sempre congestionada, mas aí é outra questão.
Veja também esse vídeo feito pelo jornalista Milton Jung mostrando a realidade do corredor de ônibus da Rebouças.
Poderia optar pelo uso do fretado “adaptado” as novas regras, não mais parando na Paulista e sim na estação Vila Madalena, para depois seguir de Metrô até a Paulista. Essa adaptação a nova realidade acrescentará no mínimo mais 100 reais em seu gasto mensal com transporte. Isso se essa linha continuar existindo, pois como ele, vários vão optar pelo carro, ou porque será mais barato, ou porque o fretado não será mais viável.
Realmente é uma guerra onde as forças são desiguais, de um lado temos uma população onde poucos tem a consciência da existência dessa guerra. De outro lado temos a prefeitura que conta com apoio direto de setores da mídia que tentam minimizar e distorcer as “manifestações”, como as que ocorreram ontem, no dia 27 de julho de 2009.
Algo que foi divulgado como uma simples e isolada manifestação, algo repudiado pela prefeitura e ao que parece, também repudiada por alguns desses canais de comunicação. Mas foram poucos os que se deram o trabalho de averiguar o que realmente aconteceu. Portanto aqui vai uma breve explicação.
Embora a mídia tenha divulgado apenas a manifestação próxima a estação Berrini da CPTM, a mesma situação ocorreu na Marginal Pinheiros com a Av. Juscelino Kubitschek, próximo da ponte Cidade Jardim. Vejam as imagens abaixo:

Ponto de parada de Fretados da Juscelino com a Marginal

Ponto de parada de Fretados da Estação Berrini
Imaginem essa situação, temos 3 ônibus com 50 vagas cada e 150 pessoas em cada ponto nos mapas acima, esperando a possibilidade de embarcar, sendo apenas um ônibus por vez. Seria complicado não?
Agora ao invés de 3 ônibus, multiplique a situação por 30, multiplicando também os 150 passageiros para 1500 pessoas. Imaginem essas pessoas nessa nova situação, antes o embarque era diluído durante o trajeto do ônibus, agora TODOS tem que pegar o ônibus no mesmo ponto. Será que excelentes técnicos da Secretaria de Transportes não conseguiriam prever a situação?

Foto Carlos Alkmin
Enquanto um canal da mídia divulgou que cerca de 200 pessoas se manifestavam, cerca de 1000 pessoas (sendo pessimista e acreditando na PM) se espremiam nas calçadas para tentar observar se o seu ônibus estava entre os veículos parados naquela enorme fila.

Foto Carlos Alkmin
Obviamente é um espaço muito pequeno para o embarque simultâneo de mais de mil pessoas, como não há espaço nas calçadas, as ruas começam a ser tomadas. Isso os ciclistas chamam de fenômeno da Massa Crítica, muito divulgada entre os participantes da Bicicletada. Já que dois corpos não ocupam o mesmo espaço, naturalmente os corpos acabam tomando os espaços vazios, ou seja, as ruas.
Agora temos outra lei da física, a da ação e reação. Pois quando esses súditos que colocaram "seus próprios interesses econômicos acima do bem estar coletivo” como disse nosso prefeito, passam a prejudicar a fluidez dos súditos motorizados, entra em ação a primeira “TROPA DE CHOQUE” da prefeitura. Com uniformes amarelo e marrom, chegam os oficiais responsáveis por conter o avanço da massa sobre uma área destinada aos súditos motorizados.
A situação apesar de bizarra estava até sobre controle, foi quando um agente da tropa de choque motorizada profere a seguinte frase:
“Para trás, pois assim vocês vão
atrapalhar o fluxo dos carros”
Foi o suficiente para que essa minoria “egoísta” (assim classificada pelo nosso prefeito) mandasse a paciência para as cucuias, e invadissem todas as pistas da marginal.

Foto Carlos Alkmin
Uma ação orquestrada por políticos da oposição infiltrados na massa para causar desordem e desmoralizar a atitude “inteligente” do nosso prefeito?
Nada disso, ocorreu simplesmente um desrespeito as leis da física e mais uma prova de burrice e estupidez dos nossos agentes de transito. Fato que demonstra o quanto são incompetentes para gerir o tráfego de outros tipos de veículos, diferente dos automóveis particulares.

Foto Carlos Alkmin
Claro que logo depois outra “Tropa de Choque” foi chamada para liberar a pista, já que os súditos motorizados não podem ser penalizados pela atitude “egoísta” dos demais súditos em tentar se livrar da dependência do carro.

Foto Carlos Alkmin

Foto Carlos Alkmin. Detalhe do monumento de ODE AO FLUXO so fundo
Mas saibam que essa guerra está longe de acabar, a prefeitura continuará punindo todos que tentarem se livrar da dependência motorizada. Nosso transporte público continuará péssimo, andar de bicicleta continuará sendo perigoso, andar a pé continuará sendo impraticável.
Já as motos, um subproduto do carro, pode ser que esses tenham um tratamento diferenciado, desde que parem de atrapalhar a fluidez dos veículos de passeios com suas mortes.
A guerra está declarada, cabe agora tomarmos consciência dela e escolher um lado. O meu já escolhi, vou continuar pedalando e tentando ajudar todos que pretendem se livrar da tirania motorizada imposta pelos nossos governantes. E você? Vai tomar algum partido?
André Pasqualini
Veja o album completo do Fotógrafo Carlos Alkmin
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