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Relação Rodízio de Carros X Ar que você respira

Outro dia, conversando com minha sogra percebi o quanto as pessoas se sentem confortável em ser enganada. Ela mora em moema e sua casa fica a uma quadra da Av. dos Bandeirantes. Comentando sobre a enorme mancha marrom, bem em cima da via, que avistei quando estava pedalando lá no alto do Morumbi, ela soltou uma pérola. “Todo mundo sabe que a culpa da poluição são os ônibus e dos caminhões”.

Não!!! Claro que não, temos 8 mil ônibus em São Paulo, mais uns 12 mil caminhões contando os que passam pela cidade, contra 6 milhões de veículos para uma população de 13 milhões de habitantes. Nem se toda a frota de automóveis fosse convertida para carros com “bio combustivel” e todos usassem álcool ao invés da gasolina, seriam despejados na atmosfera 2,76 toneladas de Monóxido de Carbono por quilômetro, contra 109 quilos do mesmo monóxido emitido pelos ônibus e caminhões*.

Olha lá que estamos falando numa situação em que todos os 6 milhões de carros fossem movidos a álcool e que estivessem com a regulagem de um carro zero. Enquanto minha sogra achava que os ônibus eram os causadores da poluição, havia uma SUV 8 Cilindros na sua garagem, que deve poluir até mais que um ônibus.

Infelizmente achar que a culpa da poluição não é dos carros, é uma falsa constatação da maioria da população, até daqueles que não tem carro mas sonham em ter um. Outro dia fui derrubado por um motoqueiro que entrou na rua que eu trafegava, onde eu tinha a preferência e me pegou de frente. Se fosse um carro ele passaria por cima, agora se fosse um ônibus ou caminhão, ele viraria lombada, mas como era um ciclista...

Além de achar que eu estava errado, pois segundo ele, não havia uma “faixa” ali, ainda saiu dando risada, falando que eu era um coitado pois ele tinha uma moto e eu uma simples bicicleta. Mas pior foi quando ele disse que paga IPVA, como se esse imposto fosse uma salvaguarda para ele atropelar um ciclista ou pedestre que, em tese, não paga IPVA.

Se somarmos todo o dinheiro arrecadado por esse tributo, não cobriríamos um décimo dos transtornos e prejuízos causados pelos carros para as cidades. Ontem eu ví uma entrevista do nosso prefeito Kassab dizendo que ele é contra o rodízio pois as pessoas não tiveram redução de 20% no IPVA. Até ele acha que os motoristas tem mais direitos que o resto da humanidade.

Isso me faz refletir sobre nosso futuro. Será que o nosso prefeito alguma vez andou de ônibus? Será que ele já chegou a caminhar pelos calçadões que ele mandou abrir para os carros no centro de São Paulo? Pelo visto parece que ele é mais um apaixonado pelo Overhaulin que não consegue se imaginar deslocando pela cidade de outra maneira que não com seu automóvel.

Temos que lembrar ao prefeito que o rodízio foi implantado, não para “melhorar o bom fluxo dos carros” mas para amenizar os males causados pela poluição, principalmente nessa época de seca e de umidade baixa do ar. Ao invés de caminharmos para um aumento do rodízio e a uma restrição ainda maior dos veículos com medidas como o Pedágio Urbano, ou a diminuição dos estacionamentos gratuitos nas ruas, vemos uma vontade declarada de dar conforto aos 30% dos afortunados dessa cidade que possuem carros. Um conforto relativo pois ficar 4 horas por dia preso dentro de um carro não tem nada de tão confortável.

Outro fato interessante é que a prefeitura realizou uma pesquisa junto a população perguntando se eram a favor do pedágio urbano e 80% dos entrevistados se mostraram contra. O que me assusta é que desses 80, pelo menos 50% não tem carro e só teriam benefícios com menos carros nas ruas. Mas a cultura pró automóvel é tão impregnada na população, que tenho certeza que os que votaram contra, na grande maioria sonham em ter um carro e quando tiverem, se sentirão prejudicados com o pedágio.

É pessoal, a luta é muito mais complicada do que imaginamos. O dia que tivermos um prefeito como o Penalosa (assistam sua entrevista) ou como o Dr Eduardo Jorge, poderemos sonhar com uma cidade mais humana e com menos carros nas ruas. É exatamente isso que eu quero demonstrar para a população com o projeto Ciclofaixas, vamos ver se consigo abrir os olhos do nosso prefeito para essa sandíce que ele esta sendo levado a acreditar. Não o condeno totalmente, pois ele tem o mesmo pensamento completamente equivocado como o da minha sogra e a maioria da população.

Enquanto isso continuo me protegendo do jeito que dá e sobrevivendo ao caos do trânsito e dos males da poluição.

André Pasqualini

* Fonte Proconve
   Campanha “1 Dia Apenas Sem Carro 2005” . todos os direitos reservados.