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O
meu dia de bike no Metrô
Moro
próximo a estação Campo Limpo da
linha rosa do metro. Esta linha liga as estações
de Largo Treze em Santo Amaro com o Capão Redondo,
fazendo integração com a linha da CPTM,
na marginal pinheiros. A distância da minha casa
até a estação é de exatamente
2,5 km com um morro de quase 100 metros de altura entre
minha casa e a estação.
Resolvi me deslocar do Campo Limpo até Moema,
próximo ao Shopping Ibirapuera e para isso, pretendia
utilizar o metro na estação Campo Limpo,
fazer a integração com a CPTM na estação
Santo Amaro e seguir de trem até a estação
Vila Olimpia, próximo a avenida dos Bandeirantes.
Minha
aventura começou frustrante, pois para a minha
surpresa, encontrei a estação Campo Limpo
fechada. Quando essa linha foi inaugurada, realmente
ela só era aberta de segunda a sexta, em horário
reduzido, mas vi uma notícia dizendo que ela
iria funcionar nos finais de semana também. Pelo
jeito isso não aconteceu e dei com a cara na
porta.
Se na estação houvesse um bicicletário,
poderia usar o metrô todos os dias, pois trabalho
bem próximo a estação Vila Olimpia.
Como vocês podem ver nas fotos, espaço
para a construção existe. O que não
existe ainda é uma boa vontade por parte do metrô
para construí-lo ou instalar paraciclos.
Para
não perder a viagem, segui pedalando até
a estação Granja Julieta, ao lado do Carrefour
da Marginal Pinheiros. Não pude deixar de notar
a desigualdade escancarada quando alcancei a ponte João
Dias. Enquanto um veículo tem diversas opções
de acesso, para todos os lados que ele pretende ir,
o pedestre que se aventura a cruzar o rio Pinheiros,
é obrigado a passar por um corredor estreito
e atravessar por uma pista onde os carros cruzam a uma
média de 40km/h, no mínimo.
Em
horários de grande movimento, já vi pedestres
esperarem por mais de 5 minutos, uma brecha entre os
carros. Mesmo assim é necessário que ele
tenha um certo preparo físico, pois essa travessia
tem que ser feita em alta velocidade. Imagino o que
seria da minha mãe ou da avó da minha
esposa ou um cadeirante naquela situação?
Ou mesmo se fosse eu ali para efetuar a travessia com
meu filho no carrinho de bebê.
Muitos podem dizer: “Mas lá não
é lugar para uma pessoa com uma criança...”
Pois bem, a cidade que eu sonho, é uma cidade
igual para todos, não importa o local que ela
esteja ou sua classe social. Todos têm o direito
de se deslocar pela cidade, com a mesma segurança.
Ou será que apenas algumas pessoas privilegiadas,
dentro de seus carros têm esse direito?
Para chegar até a estação Chácara
Santo Antônio, sou obrigado a pedalar por um trecho
na Marginal Pinheiros. Apesar do frio na espinha que
alguns ciclistas sentem quando escutam a frase “Pedalar
na marginal”, pela lei qualquer ciclista pode
pedalar por essa via. Inclusive, tirando alguns pontos
negros, no geral eu considero a marginal Pinheiros uma
das mais seguras para se pedalar. A velocidade máxima
na pista local da marginal é de 70 km/h e a pista
nos dá condições de pedalar, tranquilamente,
com uma velocidade entre 30 e 40 km/h. E não
é necessário ser um atleta para tal feito.
Aliás, muitos ciclistas profissionais pedalam
por ela e é comum eles passarem pela gente a
mais de 50 km/h.
Logo no inicio da minha aventura na marginal, resolvi
ligar a filmadora para um desses pontos negros da marginal,
o acesso para os carros que vêm no sentido castelo
e pretendem acessar a ponte João Dias sentido
bairro. Nesse momento vivi um dos maiores sustos da
minha vida.
São duas pistas para quem quer entrar no acesso,
sendo que a da esquerda serve tanto para quem quer virar,
como para quem pretende seguir em frente. Como sempre
faço, entrei nessa segunda pista e comecei sinalizar
a intenção de seguir adiante. De repente
ouço uma buzina insana e aquele peculiar barulho
de freio de ônibus. Continuei com a filmadora
ligada, mas tive que abaixa-la para colocar as duas
mãos no guidão e escapar do motorista
alucinado que passou tirando fina de mim.
Pela insanidade do motorista, achei que ele iria virar
a direita, mas não, ele seguiu na marginal. Ou
seja, não havia a menor necessidade daquela atitude.
O mais impressionante é que ele parou num ponto
de ônibus metros à frente de mim.
Continuei com a Câmera ligada, parei ao lado do
motorista e perguntei o porque daquilo. Ainda ensandecido
começou a gritar, dizendo que eu era maluco,
que estava errado... Na verdade não sei direito
o que ele falou. Como ainda não editei o vídeo,
não tenho certeza nem do que eu falei naquele
momento. Não foi a primeira vez e nem será
a última que eu passarei por apuros como esse,
mas sempre que isso acontece, por mais “Zen”
que você seja, é complicado olhar para
os olhos de uma pessoa que quase te matou e pensar em
oferecer a outra face.
O que me deixa mais triste é que se ele tivesse
conseguido me matar, sabe o que aconteceria com ele?
Absolutamente nada, responderia por um homicídio
culposo e duvido que dormisse uma noite sequer na cadeia.
Enquanto isso, eu deixaria um filho de 5 meses para
minha mulher cuidar, e uma família que, sabendo
da minha paixão por bicicleta, só teria
a lamentar um acontecimento trágico mas infelizmente
previsível.
Saí
de casa com o objetivo de desfrutar de mais uma conquista
dos ciclistas da nossa cidade, mas até então,
só tive desprazer. Depois de receber uma série
de ofensas do motorista e de um idiota que não
sei se era cobrador ou passageiro, resolvi continuar
minha saga. Pedalei até a estação
da CPTM e entrei na estação.
Como é proibido tirar fotos e filmar dentro
da estação, me perdoem pela qualidade
das imagens, pois as tirei na “surdina”,
mas valem como registro.
Me
abriram a cancela para deficientes, passei a bicicleta
e voltei até a catraca para passar meu bilhete
único. Tive que levar minha bicicleta nas costas
nas escadas, mas isso não foi nenhum problema.
Cheguei na estação e fiquei por 7 minutos
esperando o trem. Perguntei ao segurança se ele
tinha visto algum ciclista e ele me disse ser o primeiro.
Se bem que aquela não é uma estação
com muito movimento, mas tudo bem, era de se esperar
que poucas pessoas usarassem esse benefício,
pois os ciclistas gostam mesmo é de pedalar.
Mais ainda nos finais de semana, quando o trânsito
dá uma trégua. Sendo assim, a maioria
irá preferir ficar em cima da sua bike do que
encarar um trem.
Mas é
válido para um pai com seu filho, por exemplo.
Quando meu moleque crescer, ao invés de ir de
carro com minhas bikes até o Ibirapuera, sendo
obrigado a pagar estacionamento e gastar gasolina, irei
com ele pedalando até o metro e descerei na estação
mais próxima ao parque. Isso claro se, até
lá, eles abrirem a linha rosa aos domingos.
No
trem, andei mais 3 estações e cheguei
ao meu destino, na estação Vila Olimpia.
De lá segui pedalando por ruas alternativas para
chegar na casa da minha sogra em Moema, meu destino
final.
Como conquista, temos que comemorar qualquer sinal de
incentivo aos ciclistas, mas temos que continuar cobrando
pois isso ainda é muito pouco, pois essa medida
não trará contribuição significativa
para a melhoria do transito em nossa cidade, tão
pouco da melhoria das condições de segurança
para os ciclistas.
Temos que cobrar das autoridades a autorização
para o uso de bicicletas dobráveis em qualquer
dia e a possibilidade de entrarmos com as magrelas durante
a semana também, mesmo que em horários
alternativos. Essa é uma medida muito utilizada
em diversas cidades do mundo.
Outra contribuição importante que devemos
cobrar, é a construção de bicicletários
ou paraciclos nas estações de Metro e
terminais de Ônibus. Como vocês puderam
observar nas fotos, espaço há. O que esta
faltando é ação, que geralmente
é realizada quando há uma pressão
por parte da sociedade. O governo esta procurando testar
se realmente queremos um incentivo maior para a bicicleta.
Cabe a nós agora sinalizarmos o que realmente
queremos para a nossa cidade.
André Pasqualini, cicloativista, cicloturista
e responsável pelo site CicloBR.
Próximo texto: Inauguração
do Primeiro Bicicletário no Metrô da Cidade
de São Paulo.
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