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» Dia 20 de setembro, o primeiro desafio Intermodal da cidade de São Paulo.

Bike Lá Fora:

» Japão, educação, consciência e muito bom senso sobre duas rodas.

» China, um caos com uma boa dose de organização.

» Amsterdã, uma cidade que se move sobre duas rodas.

» Londres, pedalando entre a névoa da cidade.

Antiguinhas:

» O Meu dia sem Carro 2005 – Ciclistas invadem a Câmara de vereadores de São Paulo.

» Caso USP – Um exemplo que não podemos seguir.
Dia Sem Carro de 2007 - Saiba tudo que realmente aconteceu na cidade de São Paulo e que a mídia não mostrou

Desde 2004 eu participo dos eventos do Dia Sem Carro na Cidade de São Paulo e a cada ano sinto que conquistamos vitórias.

2004

Saímos da Praça do Ciclista na Paulista em um grupo de 40 ciclistas e pedalamos com destino a Prefeitura. Nas paradas dos semáforos panfletávamos e alguns erguiam suas bicicletas nas faixas de pedestres bloqueando o trânsito por um intervalo de sinal. Os ciclistas pediam a atenção dos motoristas dizendo para terem um pouco de paciência, pois eles ficam parados todos os dias no trânsito e ficar mais um pouco não fará mal a ninguém.

Com escolta forçada da CET o grupo chega na Prefeitura e pede para conversar com o Secretário de Transporte. Ficamos quase 2 horas esperando a resposta de alguém, quando um dos ciclistas tenta entrar no saguão em direção da recepção, mas esse é arrancado a força de dentro da prefeitura. Câmeras ligadas, registramos o pedido de paciência do Guarda Municipal que imediatamente afastou o GCM da Rocam frustrado e tenta acalmar os ciclistas. Depois de 2 horas somos recebidos por um assessor do assessor do assessor do secretário. Um grupo de 5 ciclistas entra, quase todos de câmera na mão.

Entre eles a Renata Falzoni que enfia a câmera na cara do assessor do assessor... Ele pergunta se ela é jornalista e com base na sua afirmativa pede para ela se retirar. Ocorre então um pedido coletivo de muito obrigado e todos se retiram da sala. O assessor do assessor do sei lá, pede para retornarmos, pede desculpa, mas a cagada já estava feita.

2005

Nova gestão na Prefeitura, conseguimos apoio oficial dela para o Dia Sem Carro. Numa reunião do GT Bike da ANTP, entrego um material do dia para o Secretário Eduardo Jorge da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA). Ele leva nosso projeto ao Prefeito que concorda em apoiar, não usando o carro nesse dia, chamando com isso muita atenção da mídia.

A tradicional Bicicletada saiu a contragosto da SVMA, com escolta da CET novamente. Haviam uns 50 ciclistas, e não pudemos pegar grandes avenidas pois, segundo a CET, iríamos “atrapalhar o trânsito”. Seguimos por ruas sem movimento até a Câmara Municipal, onde, graças o apoio da Vereadora Soninha, fomos recebidos pelos vereadores, com direito a bicicleta dentro do plenário e tudo mais.



Foi aberta uma sessão especial onde vereadores e ciclistas são convidados a subirem na tribuna para falar a todos. Pela primeira vez a Câmara é invadida pelos ciclistas e com total conivência dos vereadores. Foi apresentado pela Vereadora Soninha um projeto de lei para que o Dia Sem Carro fosse inserido no calendário oficial da cidade.

2006

Um ano havia se passado e o projeto do Dia sem Carro ainda estava empacado na Câmara. Então o atual prefeito, numa “canetada”, cria uma portaria que determina o dia 22 de setembro como o Dia sem Carro.

Ciclistas da Bicicletada, em parceria com a SVMA, organizam a tradicional Bicicletada saindo da Praça do Ciclista novamente. Dessa vez sem escolta, da mesma maneira que qualquer bicicleta se desloca pela cidade. No caminho a colocação de placas de sinalização indicando aos motoristas terem cuidado pois ciclistas passam por ali.



Todos seguem para a Vaga Viva em frente ao prédio do Copam. Lá tomamos de volta um espaço público que deveria estar ocupado por 3 motoristas, mas que naquele dia beneficiou centenas de pessoas que passaram pela nossa “pracinha”.



Dessa vez, alem de não rolar borrachadas, fomos até recebidos pessoalmente pelo Prefeito.

2007

Esse ano promete, entra em ação o Movimento Nossa São Paulo que pretende apoiar ainda mais o Dia Sem Carro e realizar uma grande mobilização. Alguns ciclistas da Bicicletada apoiaram o movimento mas, com base na sua independência, programaram diversas atividades na Praça do Ciclista, agora oficial, pois uma lei da vereadora Soninha que oficializava a Praça do Ciclista foi aprovada na Câmara dos Vereadores. No momento em que escrevi essa matéria faltava apenas a assinatura do Prefeito que tem 15 dias para aprovar ou vetar.

Finalmente houve o fechamento de algumas ruas, mesmo contra a vontade da CET. Nem as faixas que eles são obrigados a colocar dias antes dizendo “Essa rua será fechada dia tal, por motivo tal...” eles colocaram. Se eles fizessem isso, seriam obrigados a colocar que as ruas seriam fechadas devido ao Dia sem Carro. Como eles não querem em hipótese alguma fazer propaganda do Dia sem carro, preferiram deixar os motoristas a ver navios.

De manhã, depois de um Tour com um repórter da Rádio Eldorado para mostrar a ele como será a próxima ciclovia do Butantã e um pouco das agouras que os ciclistas sofrem na cidade. Depois segui até o Minhocão para ver o que estava rolando por lá, antes de subir para a Praça do Ciclista. Lá bati um papo bem gostoso com uma fiscal da CET. Nem ela sabia o porque estava ali, os motoristas perguntavam porque estava fechado e ela dizia ser pela Virada Esportiva. Só depois que a corrigi ela passou a informar que era devido ao Dia Sem Carro.



Lá em cima, no Minhocão havia um stand do Nossa São Paulo, onde eles davam algumas aulas públicas, uma linha de chegada de uma corrida de pedestre e a tenda da Caloi. Ao lado, uma exposição de bicicletas antigas e uma pequena pista de test-drive para a criançada. Como eu tenho um filho de 1 aninho, fico super empolgado com essas coisas. Como é bom tirar uma criança de casa para fazer exercício, lembro que o sonho de toda criança da minha geração era ter uma bicicleta. Hoje garotos de 10 anos só pensam em vídeo-game e carro. Também não vemos mais propagandas de bicicletas na televisão como antigamente.



Subi para a Paulista, cheguei bem na hora da reunião Zen. Enquanto uns trabalhavam outros se divertiam. Teve piquenique, peteca, xadrez, o verdadeiro espírito da reocupação do espaço público. Infelizmente a CET não fechou a rua e ainda bem que esqueceram os tacos, pois seria difícil segurar os ciclistas que estavam doidos para jogar taco na rua novamente.

foto: gira





Havíamos marcado a concentração para as 14 e a saída as 15h00. Havia a dúvida se tentaríamos segurar o pessoal até as 16:30 quando sairia o pessoal do Nossa São Paulo que estavam concentrados em frente ao prédio do Conjunto Nacional. Mas a galera estava louca para pedalar, haviam muitos ciclistas na praça, não consegui precisar o quanto.







Falei para o pessoal começar o aquecimento tradicional, passeando em volta da Praça, foi quando, pela primeira vez na vida, vi o começo da turma se encontrando com o final, formando um cinturão de ciclistas em volta da praça.



Geralmente ocupamos uma pista, uma vez numa conversa com o Benicchio, ele me disse que em São Francisco eles tomam toda a rua e os carros que esperem atrás. Falei que quando esse dia chegasse seria um dos melhores da minha vida, mas que ainda estava longe de ocorrer aqui em São Paulo.

Saímos daquele cantinho e fomos tomando a Paulista, meu espanto ocorreu quando, em frente do Conjunto Nacional, um ciclista me passou lá pela faixa da esquerda. Gritei, “Vamos ficar na direita, volta, mais devagar...”

Nessa passou um ciclista por mim e disse, “Não dá pra controlar, olha para trás”. Olhei e só avistei ciclistas, centenas deles tomando todas as faixas da Paulista, não haviam carros, uma criancinha passou ao meu lado numa aro 20 com uma calma me lembrou quando pedalava na rua da minha casa a 25 anos atrás. Barulho? Só risadas, conversas e nada de barulho de carros.



Conseguimos a muito custo liberar a passagem dos ônibus, foi quando passou uma viatura da polícia “pela faixa de ônibus”. Parou o carro atravessado no meio da Paulista e com a mão espalmada começou a gritar, “Parem!”. Lá do fundo um grito “Continua!”, e os ciclistas passando ao lado do policial, “Parem, parem!”, de repente uma figura extremamente perigosa no auge dos seus 8 anos e de patinete, para na frente do desesperado policial. Uma vaia fenomenal toma conta da Paulista, fazendo com que o oficial volte para a sua viatura e peça reforços.


foto: gira

Difícil entender que a Bicicletada não é uma manifestação, somos apenas ciclistas pedalando em grupo pelas ruas da cidade. A lei nos dá direito de pedalar, se pedalar em grupo é uma manifestação, todos os dias, 3 milhões de pessoas fazem manifestações na cidade, só porque resolveram sair as ruas, todos ao mesmo tempo, em seus veículos individuais. Porque os motoristas, presos no trânsito do outro lado da via não tem escolta? Se nós estamos fazendo uma manifestação, os motoristas também estão, então que joguem bombas e spray de pimenta neles também.

A Bicicletada continuou linda, mesmo com as constantes tentativas por parte dos policiais da Rocam em gerar tumulto para ter um motivo de agredir os ciclistas. Derrubavam ciclistas, agarraram a Renata Falzoni da ESPN Brasil que estava cobrindo a Bicicletada. Nem mesmo com a presença do Secretário do Verde e da Vereadora Soninha em todo o trajeto, foi o suficiente para acalmar os policiais.



Enquanto alguns (como eu) estávamos preocupados com a arbitrariedade que poderia ocorrer a qualquer momento, alguns estavam preocupados em compartilhar sua felicidade, levando garotos de rua de carona no cano das bikes. Alguns ciclistas passavam por mim e diziam, tem ciclista das antigas chorando lá atrás. Eu também estava muito emocionado.


foto: gira

Na primeira contagem de um ciclista da bicicletada éramos 240. Depois dos problemas com a polícia esse número reduziu para 160. Resolvemos fazer o retorno e voltar para a Praça. A partir de então o número começou a crescer. Segundo uma contagem feita no metrô brigadeiro, chegamos a 320. Quase dois quarteirões da Paulista tomada por ciclistas. Nas paradas no semáforo havia o tradicional levantamento das bicicletas. Uma homenagem a aquela que nos carrega para diversos lugares sem cobrar nada, nem uma gota de gasolina. Percebi a inveja dos motoristas ao lado que não poderiam fazer o mesmo com seus amados veículos.

O levantamento de bike era uma verdadeira “Ôla”, pois o pessoal do início abaixava as bikes enquanto o pessoal do fundo começava a levanta-las.


foto: Stanley

Tudo seguiu lindo até a Praça do Ciclista, lá alguns resolveram ir atrás do pessoal do Nossa São Paulo, enquanto outros, mais extasiados com a enorme bicicletada resolveram ficar na praça, ouvindo uma boa música e relaxando.

Caiu a noite e foi passado o vídeo Sociedade do Automóvel do Thiago Benicchio e da Branca Nunes e depois o DJ Ban continuou animando uma verdadeira Rave em plena Paulista. Até uns amassos entre a galera rolou, jamais imaginei algo tão bonito como vi naquele dia.


foto: CMI Brasil


foto: Polly

Seguimos firme até as 2 da manhã sem ninguém nos oportunar, sem uma briga sequer, sem nenhum stress (exceto o provocado pela própria polícia) o que me fez acreditar que essa cidade ainda tem jeito, um dia poderá voltar a ser mais humana. Muita coisa ainda tem que mudar, mas a mudança lenta e trabalhada que altera o lado cultural é mais forte e duradoura. Agora é só continuar a trilhar esse caminho. Não sei se terei uma cidade tão justa como gostaria em minha vida, mas a esperança é que sempre aja alguém disposto a batalhar por isso.



Quero finalizar com uma mensagem que recebemos da Renata Falzoni, cicloativista das antigas, não vou falar a idade dela, pois é uma indelicadeza, mas garanto que aparenta uns 15 anos a manos. Estou divulgando mesmo sem a sua autorização, mas é uma mensagem que garanto irá emocionar e motivar vários cicloativistas da mesma maneira que ocorreu comigo.

André Pasqualini

Mais Dia Mundial sem Carro de 2007 no Apocalipse


FOI TUDO REALMENTE FANTÁSTICO.

Na Largada da Bicicletada chorei muito de emoção porque pela primeira vez vi e entendi  que por fim uma outra geração assumiu o bastão dessa luta que por tantos anos esteve nas mãos de uns poucos "gatos pingados" de sempre.

Éramos pouco mais de 5 e outros tantos simpatizantes, éramos  vistos com ceticismo e tidos como palhaços exóticos!

Presenciei ao longo desses 30 anos cenas patéticas e carregar essa luta nos últimos  por vezes foi desanimador. Dedico essa minha emoção ao Sergio Bianco, que por sinal figura no vídeo que eu veiculei na ESPN/Brasil da Bicicletada de 2005 e quando vejo POR FIM ao meu lado jovens que sabem o que querem, choro de emoção!

NOSSA CAUSA  não tem cacife para divisões e sim NEGOCIAÇÕES.

Eu estou com todos vocês independente dos pontos de vistas, pois eu estou em prol da BICICLETA NAS RUAS, CIDADÃOS NAS CALÇADAS e CARROS ESTACIONADOS NAS GARAGENS PRIVADAS.

Renata Falzoni

   Campanha “1 Dia Apenas Sem Carro 2005” . todos os direitos reservados.