Não existe nada mais comum do que, em meus deslocamentos de bicicleta, encontrar um ciclista e dar um “oi”, um aceno com a cabeça, às vezes uma buzinada com minha “trim-trim”, muitas vezes até pedestres eu cumprimento, basta apenas me direcionar o olhar por um curto período de tempo para retribuir com um aceno. Agora de carro, as vezes fico até com receio de parar num semáforo, olhar para o lado, pois sinto um enorme receio do motorista virar e perguntar: “Que foi?!!”. Isso quando eu olho para o lado e não vejo nada além de uma “burca”, impossibilitando de ver se existe algo humano dentro daquela lata ao lado.
Quando pedalamos, às vezes encontramos ciclistas a nossa frente em ritmo mais lento. Pacientemente aguardo e quando o ultrapasso com segurança, se possível mando um “alô”. Eu particularmente, nunca vi um ciclista se irritar com outro mais lento. Se for uma pessoa mais idosa ou uma mulher ela é ainda mais respeitada.
Já entre os carros, durante todo o trajeto que um carro percorre, o que notamos é uma competição desenfreada. Sempre tem alguém querendo ser mais rápido, querendo ser melhor que o outro veículo e isso fica muito claro quando o trânsito se encontra totalmente parado (algo pouco comum em São Paulo, concordam?). Nesses momentos todo espaço que pudermos “roubar” dos veículos a frente vale os sacrifícios, mesmo se isso significar apenas alguns segundos de vantagem. Para quem é apaixonado por Fórmula 1, cada segundo pode significar muito.
No vídeo acima isso fica muito claro, ele foi gravado na pista da Marginal Pinheiros, entre as pontes do Morumbi e João Dias. Essa pista é provida de acostamento, e é comumente utilizada pelos ciclistas e pedestres, nos dois sentidos. Aliás, segundo o art. 58 do CTB, eles são os únicos que podem trafegar pelo acostamento. Mesmo sendo contramão para quem segue sentido Castelo Branco, é muito mais seguro seguir por ela do que atravessar a ponte João Dias, a mais mortal da cidade, e seguir no sentido Castelo da Marginal.
Mas, diariamente, nos horários de pico, graças ao trânsito completamente parado que se forma nessa via, a sede por espaço dos motorizados faz com que inclusive o acostamento seja invadido pelos carros. Muitos que não conhecem essa região podem dizer: “Ah, mas isso é atípico, duvido que ocorra sempre...”. Mas como profundo conhecedor da região respondo: atípico é chegar às 8 da manhã nessa via e ver o trânsito fluindo normalmente! Inclusive as fotos dessa matéria foram tiradas em março de 2006, enquanto o vídeo foi gravado em outubro de 2007.
E a tendência é só piorar, pois com a inauguração da ponte “Estaiada” da Águas Espraiadas, uma quantidade enorme de veículos terá acesso a essa via e então, nunca mais teremos a “fluidez” que tanto a CET venera.
Voltando ao assunto central, temos as seguintes perguntas: O que desperta no motorista essa competição desenfreada? Porque será que muitos dos motorizados não conseguem fazer como uma grande maioria, que prefere aguardar pacientemente no trânsito a sua vez?
Muitos vão achar que é a impunidade, como é possível conferir no vídeo, já que não é necessário muito esforço para lavrar milhares de infrações. Mas eu particularmente acho que é uma simples questão cultural, graças a quantidade e qualidade das propagandas de automóveis, e também culpa dos nossos pais, pois de certa maneira, eles nos alimentaram a necessidade de ter um carro um dia. É aquela velha história de ganhar um carro quando completar 18 anos, alcançando a independência, essas coisas...
Na propaganda, ao invés de passarem a imagem de um objeto muito útil, que deveria ser usado de forma responsável, eles preferem apenas enaltecer a superioridade e o status que o veículo pode proporcionar. Quantos carros você já viu andando na parede de prédios ou embaixo de viadutos? Luxo, velocidade, “potência”... Parece até que o carro tem o poder de compensar aquela falta de sorte da natureza, que resultou numa inferiorização do seu objeto de fertilidade.
O engraçado é que esse tipo de propaganda tem mais poder sobre o “Bicho-Homem” do que sobre
as mulheres. Mas o problema é que essa cultura, associada com a agressividade e competição, inerente ao “Bicho-Homem”, acaba se convertendo numa energia que em algum momento, precisará ser dispersada.
Incrível, mas em todas as propagandas o céu tem um azul impressionante e não aquele azul “amarronzado” que estamos acostumados em ver em nossas cidades. Quando a paisagem do comercial é urbana, as ruas são desertas e, se vocês notarem, quase sempre molhadas. Isto porque dias chuvosos estimulam as pessoas a ficarem em casa. Ruas vazias ideais para gravações.
Todos esses marketings, bem como aquelas lições culturais que aprendemos desde nossa infância sobre o poder do carro, têm como conseqüência a glória das financeiras, que é quando você finalmente compra seu carro. Ele é vendido como se ele fizesse de você uma pessoa diferenciada, ou seja, melhor que as demais. Daí o coitado vai até a concessionária, compra seu veículo, ou melhor, pega emprestado junto ao banco, sai de lá achando que é realmente melhor que os outros, que todo mundo vai vê-lo em seu carrão, ou seja, sucesso total, mas é justamente nessa hora em que ele cai do cavalo.
O máximo as pessoas vêm é o carro, jamais quem está dentro, aí ele percebe que, para os outros, o carro é mais importante do que ele. Mas o golpe de misericórdia acontece quando ele fica preso no trânsito, atrás de um caminhão fumacento e de um fusca 68. Então cai a ficha e ele percebe que é tão igual a aquele “tiozinho” do fusca.
Junto com a frustração vem a fúria, que leva a pessoa a querer tomar vantagem do “tiozinho” do fusca a qualquer preço. Já que ele não consegue demonstrar que seu carro com 200 cavalos é mais rápido que a fuqueta (algo impossível nas ruas de uma cidade onde a velocidade média é de apenas 17 km/h), então ele tenta se desvencilhar a todo custo. Ou tentando trocar toda hora de faixa, ou tentar fazer um “caminho alternativo” passando por ruas intermediárias, que há alguns anos atrás eram consideradas “tranqüilas” ou, porque não, usar o acostamento.
Se você é daqueles ciclistas ou mesmo motoristas que ficam indignado todas as vezes que um “espertinho” se aproveita do acostamento para ganhar vantagem, mande o link dessa página para esse email: falecom13@cetsp.com.br. Escreva e cobre da CET alguma providência contra esse festival de impunidade.