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A Saga de um ciclista que, só queria andar de bicicleta, como manda a lei. Bicicletada Interplanetária 2008. Parte 1
09/12/2008

Não acreditem nessa história de que fomos impedidos de chegar ao mar porque o “passeio” não estava autorizado. Mentira, fomos impedidos como são todos os ciclistas que tentam chegar ao mar saindo de São Paulo.
A desculpa do passeio serviu apenas para justificar essa mobilização absurda com mais de 40 viaturas, forças táticas da PM, com direito a bombas, rifles de armas de borracha, gás de pimenta e policiais sem identificação. Fácil perceber quando a própria PM procura a desordem. Tiram suas identificações e ate perguntam, “querem diálogo?” E nos mostram um cacetete escrito diálogo. Isso tudo só para impedir que centenas de ciclistas, chegassem a praia com seus veículos. Aliás, veículos com os mesmos direitos que os motorizados, pena que a lei só vale para quem tem motor.
Porque só o cidadão tem que seguir a lei? Porque o Estado não tem a mesma obrigação? Até quando terei que explicar que não quero apenas “chegar a praia”. Eu quero que o Estado faça sua parte, que cumpra a lei. Se o estado não cumpre, com que moral quer que o povo cumpra?
Esse relato irei escrever na primeira pessoa, pois é a minha opinião e não a de um grupo. Não falo em nome de ninguém. Não sou organizador de PO#$% nenhuma, sou apenas um cidadão que quer que a lei seja cumprida e para isso tentou chegar até a praia com seu principal meio de transporte, pois as leis brasileiras lhe garantem esse direito. Mas uma viagem que poderia ter durado 6 horas apenas, acabou levando 30 horas, uma verdadeira saga só para conseguir ver minha mulher e filho, que estavam a poucos quilômetros de mim, com uma Serra e uma PM arbitrária, inconseqüente e agindo a margem da lei entre nós.
Não sou bandido, odeio ser tratado como bandido, fico mais puto quando vejo um monte de dinheiro público, dinheiro meu também, ser gasto para alimentar o ego de um comandante que não tem literalmente o que fazer. Ao invés de nos dar segurança, como manda a lei, prefere prejudicar milhares de pessoas, causar um congestionamento de mais de 15 km, causando acidentes e colocando vida de pessoas que nada tem a ver com a situação em risco. Dane-se o que os outros vão pensar, no final a gente fala que a culpa foi dos ciclistas e está tudo certo.
Foi exatamente isso que aconteceu, foi isso que os comandantes daquela bizarrice pensaram e que vou detalhar no longo relato abaixo.
Meses atrás surgiu uma idéia de copiar a Ciemmona, a Bicicletada Interplanetária que ocorre anualmente em Roma, quando cerca de mil ciclistas pedalam 30 km com destino ao litoral. Não sei de quem venho a idéia, pouco importa. Eu como ciclista sei que o sonho de milhares de Paulistanos é o de se chegar ao litoral com sua bicicleta. Eu já fiz isso inúmeras vezes, mas sempre de maneira clandestina, pois apesar do acesso as rodovias ser garantido por lei, esse direito nunca foi respeitado.
Sei também que muita gente concordou com a idéia e surgiu uma data e horário, assim estava marcada a Bicicletada Interplanetária. Quem já tentou descer para o litoral pelas vias que temos, sabe que muitos são barrados, uns obrigados a retornar ou tem suas bicicletas apreendidas, mesmo sem base legal. Isso quando não tem seus pneus cortados por aqueles que, em tese, deveriam proteger o cidadão. Por isso que centenas de pessoas resolveram participar dessa pedalada, pois em um grupo grande, com a lei do nosso lado, seria mais fácil discutir e teríamos nossa tão sonhada viagem para a praia realizada.

Imaginamos (como somos tolos) que a PM não iria causar um trânsito absurdo, prejudicando milhares de motoristas e que iria acabar cumprindo a lei e se necessário, nos escoltando nos trechos entre os túneis e em menos de 15 minutos, todos estariam no litoral, em harmonia a paz. Mas Paz foi a última coisa que passou pela cabeça de quem comandava a PM e pela cabeça da maioria dos comandados.
Uma verdadeira operação de guerra foi armada, mas só um lado estava preparado para o confronto. Como diz o ditado, “se um não quer, dois não brigam”, ainda bem que nada de mais grave aconteceu. Desde a Praça do Ciclista haviam policiais “a paisana”, aguardando nossa saída. Lá seguimos num enorme grupo que crescia conforme a massa pedalava. Quando entramos na Imigrantes nossa surpresa. Havia um bloqueio impedindo TODOS os veículos de passarem.
Mas não estávamos fazendo nada de errado e os ciclistas, pela grama foram seguindo em frente. Isso foi ocorrendo em vários momentos, nos paravam e usavam a tática de nos vencer pelo cansaço, pedindo para aguardarmos alguma “ordem superior”. Numa dessas paradas aguardávamos pacientemente, já havia passado o prazo que nos pediram, quando um ciclista da região passou sem ser molestado pelos PMs. Não deu outra, o que vale para ele vale para nós e seguimos pedalando.
Toda vez que parávamos, ocorria lentidão. Curiosos, os motoristas reduziam a velocidade para saber o que estava acontecendo. Quando andávamos, era a PM que andava lentamente na faixa da direita da rodovia e acabava causando a lentidão. Bastava uma viatura na frente e outra atrás pelo acostamento, mas não, em nenhum momento eles se preocuparam em evitar transtornos aos motoristas, naquele sábado eles estavam cegos e obcecados, a meta era parar, a todo custo, os ciclistas.

Próximo do km 28 a massa se separou devido a mais um bloqueio. Esse foi o pior de todos, com policiais sem identificação e fortemente armados, com direito a uma covarde agressão com um cassetete em uma ciclista. Eu passei por esse bloqueio, devo ter sido o último a passar, ficaram para trás a Falzoni e o pessoal da Record que estava cobrindo o movimento. Do grupo da frente só eu tinha filmadora para registrar os abusos da policia. Depois disso, principalmente o pessoal que ficou no último bloqueio começou a desanimar, muitos foram embora.
Um grupo que estava na frente, ignorou a parada que faríamos no Mac Donalds resolveu seguir em frente. Eu parei no pedágio para conversar com um pessoal da Artesp. Um ciclista por conta própria fez uma consulta junto a agencia, perguntando se o ciclista pode usar a Imigrantes e a resposta foi positiva (Protocolo 104711), podemos sim pedalar pela Imigrantes.
Ali fui parado novamente e se continuasse seria PRESO. Como pode? Ser preso por pedalar num lugar onde eu tenho esse direito? Depois de muita conversa, nos deixaram ir até o posto e depois deixaram todos os que ainda estavam na estrada, se juntar aos ciclistas que estava na Interligação, no km 42.

O trânsito estava tudo parado até a Interligação, pela curiosidade dos motoristas que reduziam a velocidade. Como a PM não estava nada preocupada em amenizar os problemas do trânsito, (pelo contrário, senti que aquela situação enchia de orgulho alguns PMs) os ciclistas resolveram ficar “escondidos” na grama atrás do viaduto e com isso o trânsito começou a fluir.

Eram 14h00 já estava desistindo de tentar argumentar, precisava chegar no litoral, pois já havia sido avisado ela minha mulher que meu filho não estava bem de saúde, mas não faria de outra maneira que não fosse pedalando meu meio de transporte, recebi um telefonema de uma pessoa que tentava nos ajudar nos bastidores, dizendo que fomos liberados e que em breve chegaria a autorização.
Foi uma alegria, a galera que resistiu bravamente ficou em êxtase. Mas senti que o “comandante” da operação não ficou tão feliz, pois até então, ele dizia que se chegasse uma ordem superior eles nos escoltariam com alegria, pois era o que “eles mais queriam”. Mal sabia eu que na verdade, era ele quem estava fazendo de tudo para nos impedir e que a autorização só iria desmoraliza-lo.
As horas começaram a passar e nada, ligava para meu contato, buscava informações e já quando começava a anoitecer venho a notícia que ocorreu uma briga interna e que não nos deixariam descer, de maneira alguma. Eu sou besta, procuro acreditar nas pessoas, até nos PMs, pois no fundo são pessoas como nós, mas já fui enganado covardemente no WNBR e mais uma vez fui enganado pelo PM que comandava aquela palhaçada.

Resolvi ir para o Riacho Grande, pois de lá tentaria descer pela Estrada Velha de Santos de madrugada, como já havia feito outras vezes. Não poderia voltar para a casa, eu sai de casa com o intuito de chegar no litoral pedalando e nada me impediria realizar meu objetivo. Um grupo de 16 ciclistas fizeram cia nessa nova etapa da aventura e a PM nos escoltou até o Riacho Grande.

Jantamos na cidade e a meia noite seguimos pela rodovia Caminho do Mar, ou Estrada Velha de Santos. Minha última descida por lá foi em 98. Há 10 anos atrás, havia uma guarita ao lado da Casa de Pedra, o guarda estava dormindo e só precisávamos pular a cancela e descer tranqüilamente. Mas dessa vez havia uma enorme barreira uns 2 km antes da Casa de Pedra, com uma viatura e 3 vigias. Impossível argumentar e ali quase se foram às últimas esperanças. Mas no portal nos informaram que havia uma estrada de terra, a Estrada da Xiboca, que nos levaria até a Anchieta, depois do pedágio, com isso não seríamos vistos pelos policiais.

Eu e mais um ciclista resolvemos seguir por ali, e o resto do grupo voltou para casa. Levamos umas 2 horas para percorrer um trajeto de pouco mais de 3 km, a estrada sem nenhuma iluminação, apenas a Lua e uma lanterninha nos ajudava a desviar das poças e do barro. Não dava para pedalar, sem visão tínhamos que ir empurrando as bikes.
Na Anchieta, a primeira opção seria descer por ela mesmo, mas a bike do meu parceiro estava com muitos problemas de freio e pneu. Resolvemos então seguir para o Rancho da Pamonha, que fica na Imigrantes, mas no sentido São Paulo, logo no final da subida da serra. Lá arrumaríamos a bicicleta do meu amigo e antes de o dia clarear, tentaríamos descer pela pista de Manutenção da Imigrantes.
Fizemos o que planejamos e as 7 da manhã conseguimos entrar na Manutenção. A saga não havia acabado, usamos o último remendo no começo da Manutenção e logo no ínicio da descida, mais uma vez o pneu do meu amigo furou. Arranquei a câmera do pneu do meu amigo e enchi com folhas. Primeiro com folhas secas, mas essas se quebravam e perdiam a compactação rapidamente. Então passei a usar folhas de bananeira, muito comum na região. Graças a essa “gambiarra” conseguimos descer praticamente toda a estrada.

A estrada de Manutenção pode ser a opção dos ciclistas para descer o litoral, mas até nela não temos permissão e para acessa-la temos que “driblar” a PM e andar por 2 km na contramão da Imigrantes. Dentro dela temos que tomar cuidado para não pegar uma bifurcação errada e nos perder. Se ela tivesse uma sinalização para os ciclistas e algumas intervenções de segurança, para evitar uma queda acidental, seria perfeita.

Apesar de, por mais que seja a descida da Serra, há várias longas subidas, o trajeto aumenta consideravelmente em relação a Imigrantes, mas é muito mais bonito e preservado. Hoje ela é apenas usada pelos funcionários da rodovia e pelo povo que faz macumba, sujando ainda mais as cachoeiras e trilhas da Mata Atlântica. Se fosse aberta apenas para os ciclistas, com certeza ela seria muito mais preservada do que é hoje.

Foto tirada em minha primeira viagem pela Manutenção em 2007.
No final dela há uma das portarias do Parque da Serra do Mar, antes passávamos por lá sem maiores problemas, mas de um tempo para cá passaram a proibir ciclistas de usarem a passagem. Parece até que há um movimento para dizimar os ciclistas da região. A alternativa é pegar uma das bifurcações para sair ao lado do último túnel da Imigrantes. Mas é preciso encontrar na raça, pois não há placas de informação.
Numa dessas buscas pelo acesso, como meu amigo estava descendo lentamente, acabei me perdendo dele. Achando que ele havia passado por mim, desci até o parque e lá recebi a informação de que se passasse receberia bala. Depois de tanto tempo sendo tratado como bandido você acaba se acostumando.
Voltei e encontrei meu amigo que não sabia fazer o “pneu vegano” e estava descendo a pé, com a bike empinada. Fiz novamente o pneu, quando na descida encontrei um outro amigo, que estava na Interplanetária. Ele havia acampado num pesqueiro perto da Imigrantes e no dia seguinte se aventurou pela Manutenção. Lá encontrou um grupo de 40 ciclistas que vieram de ônibus de Araraquara, apenas para descer pela Estrada de Manutenção. Ou seja, se a descida por essa via fosse oficializada, ela seria um grande atrativo turístico.
Esse pessoal estava bem equipado e nos ajudaram a fazer um remendo decente, o suficiente para chegarmos ao final da serra. Lá encontrarmos uma bicicletaria, onde nosso amigo conseguiu arrumar seu pneu e ir para Praia Grande, seu destino.
De lá seguimos pela Imigrantes até a linha amarela em São Vicente, lá entramos numa Ciclovia que nos levou até o mar. Novamente seguimos pela ciclovia, contemplando o mar e depois de exatas 30 horas, consegui colocar o pé na areia e me deliciar com uma porção de porquinho e pescada, acompanhada de uma cervejinha.

A saga poderia ser desnecessária, mas isso é Brasil um lugar que existem “leis que pegam” e leis que são ignoradas. O pior não são as leis que são ignoradas pela população, mas as leis que são ignoradas pelo estado. No caso dos ciclistas temos várias, como a lei que previa que o Estilingão (ponte estaiada) tivesse acesso para ciclistas, que a Nova Radial tivesse ciclovia e por aí vai.
Ignoraram o direito de ir e vir dos ciclistas, ignoraram o Código de Trânsito Brasileiro. A alegação foi de segurança, mas isso é bem do Brasil, se as pessoas não tem voz, é mais fácil tira-los do caminho do que resolver um problema, que nesse caso seria o de dar a segurança. Ocorrem vários acidentes graves nessas rodovias, porque não proíbem os carros? Isso jamais, eles geram um lucro absurdo, não dá para proibir. Porque então não reduzir a velocidade? Também não, é mais “rentável” criar uma logística que tire a carcaça do caminho do que reduzir a velocidade para evitar acidentes.
Mas como eles só ouvem quem reclama, quem faz barulho, então vou lá fazer barulho. A partir de agora, todo final de semana vou tentar fazer valer meu direito. Todos os sábados, estarei na Praça do Ciclista e sairei com destino a Santos. Sozinho ou na cia de vários ciclistas eu irei. Um dia alguém de visão irá perceber que será bem melhor garantir nossos direitos, do que tentar nos impedir a todo custo de acessar a via.

Interplanetária todo sábado, até termos nossos direitos garantidos, até o dia 13 e parabéns a todos que tentaram a todo custo fazer valer seus direitos. Em breve a continuação dessa saga, que esperamos terminar com dois capítulos apenas.
André Pasqualini
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