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O que é mais perigoso, andar de carro ou de bicicleta?
17/02/2009

Foto Macaco Veio
Após o acontecido com nossa amiga Marcia Prado, muitos ciclistas conhecidos foram tomados por um medo incomum de pedalar. A maioria deles eram ciclistas inexperientes, aqueles que incentivados por ciclistas rodados como a Marcia, estavam vencendo seus medos e sentindo na pele os benefícios de quem adota a bicicleta como um meio de locomoção na cidade.
Devido a isso, nessa matéria quero discutir a questão da segurança e contestar alguns mitos. Andar de bicicleta é realmente perigoso? O que é mais seguro, pedalar ou dirigir?
Primeiro vou analisar as estatísticas, não temos como saber exatamente quantas pessoas se locomovem de bicicleta no Brasil. As estatísticas de carro são fáceis de ser encontradas, mas bicicletas...
O fato do ciclista ser tratado como um cidadão de segunda categoria contribui para esse descaso, enquanto o IBGE consegue te informar quantos fogões ou geladeiras temos no Brasil, o mesmo instituto não sabe dizer quantas bicicletas há nas residências brasileiras.
Segundo o Denatran, a frota de automotores brasileira esta por volta dos 54 milhões de veículos, (sendo 32 milhões de carros e 11 milhões de motos). Como não temos estatísticas oficiais, temos que correr atrás e realizar nossas estatísticas. Segundo a Abraciclo, a produção nacional anual gira em torno de 6 milhões de bicicletas. Mas um dado relevante é que a produção e importação de coroas de bicicleta gira em torno de 18 milhões por ano (números de 2004) e com base nos cálculos descritos nessa apresentação, estimasse que a frota de bicicleta em 2004 era de 70 milhões.
Se apenas mantivermos esses números até 2008, a frota nacional de bicicleta ultrapassaria a marca de 100 milhões facilmente. Vamos então considerar a estimativa da própria Abraciclo de que 50% das bicicletas tem como finalidade o uso como meio de transporte. Temos aí, pelo menos, 50 milhões de bicicletas circulando no Brasil.
Antes de dizerem que muitas dessas bicicletas possam estar em desuso, não vou levar isso em consideração pois o próprio Denatran não considera isso em seus dados, por isso o número de 54 milhões. Segundo a ANTP, estima-se que a frota circulante de automotores brasileira não passe de 24 milhões de veículos.
Esses números todos são para provar que há muito mais bicicletas se deslocando no Brasil do que veículos motorizados. Vamos analisar então o número de mortes no trânsito brasileiro. Vejamos os números do Anuário Estatístico de Acidentes de Transito de 2006:
| Condutores e Passageiros |
Pedestres |
Ciclistas |
Motociclistas |
Outros* |
Total |
| 8.618 |
4.375 |
1.214 |
3.186 |
2.359 |
19.752 |
*Soma da categoria "Outros" e "Não Informados"
Apenas por esses números, podemos notar que é 7 vezes mais perigoso andar de carro no Brasil do que de bicicleta. Só estamos falando em mortes, não falamos dos riscos de assaltos, nos prejuízos financeiros, etc. Claro que é uma analise bem superficial, mas já acho o suficiente para desmistificar um pouco essa crença de que pedalar é perigoso. Se deslocar é perigoso, principalmente a pé. Mas andar de bicicleta pode sim ser seguro, já foi comprovado que quanto maior o número de ciclistas, menor o número de acidentes de trânsito.

Na China, apesar de parecer um caos, os números de acidentes fatais são pequenos. Na Holanda são poucos os que usam capacetes pois os ciclistas se sentem seguros ao pedalar. Não precisamos ir longe, a cidade de Ubatuba, que possue uma população de 69 mil habitantes e uma frota de 80 mil bicicletas, é quase impossível achar alguém com capacete e os números de acidentes são insignificantes. Isso porque a maioria dos motoristas da cidade ou tem ciclista na família ou é ciclista também e como tal sabe o que deve fazer para garantir a segurança dos ciclistas como motorista.

Não é Japão não... É Ubatuba, no Brasil.
Pedalar em Ubatuba só é perigoso nos finais de semana e feriados, quando a população da cidade quadriplica e é invadida por motoristas irresponsáveis de regiões onde os motores imperam. Segundo os funcionários da prefeitura de Ubatuba, é justamente nesses períodos quando aumenta o número de acidentes envolvendo ciclistas.
Mas e em São Paulo? Esta mais seguro pedalar?
Eu pedalo nessa cidade desde 1993, realmente até 2004, só aconselhava a pedalar em grupos ou se o ciclista fosse praticamente um atleta. Pois só andando no mesmo ritmo que os carros, para as chances de agressões diminuir. Mas principalmente de 2006 para cá, tivemos grandes mudanças, principalmente no comportamento do motorista paulistano.
Primeiro lugar a velocidade dos carros diminuiu drasticamente devido aos recordes de congestionamento na cidade. Como a média de velocidade caiu de 25 para 17 km/h (contra 15km/h de um ciclista inexperiente) e ainda ocorreu um aumento no número de ciclistas na cidade, fica nítida a percepção dessa mudança de comportamento em grande parte dos motoristas paulistanos.

Estilingão ou a ponte que menos carro passa de São Paulo
Claro que ainda há um grande número de motoristas que não respeitam nem suas mães, caso elas estejam no seu “caminho”, mas no geral houve sim uma mudança para melhor. Isso muito se deve ao aumento do número de ciclistas que passaram a ser mais visíveis no trânsito, as campanhas realizadas pelos próprios ciclistas, também o fato de muitos canais de imprensa realizarem matérias falando sobre a Bicicleta como meio de transporte, tudo isso contribuiu para formar um motorista mais respeitoso com o ciclista.

Excelente matéria da revista Época onde uma jornalista adere ao deslocamento em bicicleta.
Apesar de tímido, não podemos deixar de citar também os esforços de um pequeno grupo na Prefeitura, principalmente dentro da Secretaria do Verde (SVMA) que trabalha arduamente para que a bicicleta passe a ser considerada um veículo pelos gestores do trânsito da cidade.
Essa mudança podemos ver nos números, enquanto tivemos 84 mortes em 2006, 83 em 2007, segundo a CET, a previsão é de que os números de ciclistas em 2008 se encerrem em 60, uma redução de quase 30% no número de acidentes fatais com ciclistas. Sim, se esses números caíram se devem as manifestações da sociedade e não por interferência dos “donos do trânsito” de São Paulo, a CET, conforme eles tentam alegar nessa entrevista ao jornalista Milton Jung da CBN.
Mas o que fazer para pedalar em São Paulo ou nas grandes capitais?
Apesar da bicicleta se mostrar como a melhor opção para se deslocar nas marginais em várias situações ainda está longe de podermos dividir grandes avenidas com os motorizados. Não só em São Paulo mas em todo o Brasil, o melhor a fazer é analisar trajetos alternativos, nem sempre o trajeto que você faria de carro ou de ônibus é o melhor para ser feito de bicicleta. Procurar andar por vias dentro de bairros, cheias de obstáculos ou valetas, onde os carros não se sentem a vontade em correr, é a melhor alternativa.
Se a via é de mão única e há ônibus trafegando na direita, não se sinta incomodado em andar na esquerda, longe dos ônibus. O artigo 58 do CTB diz que temos que andar nos “bordos” da pista, não necessariamente à direita. Se não for uma via rápida, com velocidade superior a 50 km/h, vá sim pela esquerda. Você até notará que os carros passarão com uma distância até maior que quando a direita, devido a sua proximidade com o motorista. Também evitará a manobra mais perigosa para os ciclistas, ser ultrapassado por um ônibus.
Quem anda de Bicicleta faz muito mais do que se deslocar com rapidez e qualidade, consciente ou inconscientemente, ele pedala para que sua cidade seja melhor. Além de benefícios a si, também traz benefícios as nossas cidades e ao nosso planeta. Apesar de ser um momento difícil, não vamos desistir. Tem milhões de pessoas que estão buscando coragem para unir-se a nós, portanto não devemos desanimar, vamos continuar tirando nossas bicicletas das garagens para tomar as ruas, estimulando mais pessoas a fazerem o mesmo.
André Pasqualini
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