Comprovado – A fluidez motorizada é mais importante que a segurança da população
13/04/2009
Para quem não conhece, na Marginal Pinheiros, entre as pontes do Morumbi e João Dias, sentido Interlagos, tem 4 faixas de rolamento e uma pista de acostamento em praticamente todos os 4 kms que separam as pontes. O trânsito na região sempre foi complicado, depois da construção do Estilingão (Ponte Estaiada), piorou de vez. A Marginal, antes da Ponte do Morumbi tem 4 pistas na via expressa, duas na local e mais duas do Estilingão. O resultado é um gargalo que trava tudo na região diariamente.
Trecho da Marginal que "ainda" tem acostamento
Os ciclistas que trabalham na região do Brooklin, Vila Olimpia, Morumbi e moram na região do Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim São Luis, Socorro e Guarapiranga, costumavam usar aquela pista do acostamento porque é realmente mais segura, além de ser plana em quase sua totalidade. Havia também um intenso tráfego de pedestres e como não há calçadas, eles são obrigados a andar no acostamento, o que não é ilegal.
O único problema para os ciclistas era a falta de respeito de alguns motoristas que insistiam em trafegar pelo acostamento, aproveitando a omissão dos órgãos de trânsito que só se preocupam em multar o rodízio (veja o vídeo acima). Mesmo assim nunca fiquei sabendo de um acidente fatal ali, já passei vários apuros do outro lado da marginal, mas raros momentos tensos naquela pista.
Na quinta passada (09/04), quando ia para casa pedalando, passei pela pista e ví que o acostamento estava sendo apagado. Graças a isso pedalei uns 2 km com um carro colado em mim, forçando passagem, pois como não havia mais acostamento, ele se sentiu no direito de atentar contra a minha vida, já que agora “eu “ era o errado.
Consultei então a CET, entrei em contato com o pessoal da GET 6 (que cuidam das marginais) e tive a triste informação de que aquele acostamento irá se tornar uma pista para carros.
Mas e os pedestres e ciclistas? A resposta foi aquela ladainha de sempre, que bicicleta é perigoso, que eu tinha que me virar e achar outra maneira de me deslocar, pois a partir da nova sinalização de solo, estarei proibido de trafegar ali.
Apesar do Art.58 do CTB dizer que na falta de acostamentos, ciclovias e ciclofaixas nós podemos andar nos bordos da pista, há outro artigo (244) onde diz que não podemos andar nas vias de trânsito rápido que não possuem acostamento. Juridicamente, não sei como funciona quando um artigo diz que pode e outro diz que não. Mas como no Brasil a justiça protege os mais fortes, a partir de agora, se um ciclista for atropelado naquela via, poderá até perder a razão, já que do dia para a noite, ele não pode mais passar por lá.
Mas não seria de responsabilidade da CET efetuar uma operação indicando aos ciclistas as rotas alternativas da mesma maneira que eles fazem com os carros quando os impedem de trafegar em algum ponto, como fizeram quando bloquearam uma quadra da Paulista, com direito até a infográfico?
Não ri não...
Mas o que pode acontecer de agora em diante no local? Nessa segunda, dia 13 de abril, fiquei pouco mais de uma hora lá e mesmo em baixo de chuva, fotografei mais de 80 ciclistas e alguns pedestres. Muitos ciclistas não terão alternativa e continuarão pedalando na marginal, agora sim se arriscando. Os pedestres vão se equilibrar numa guia de 15 centímetros e verão os carros passando a centímetros deles. E os carros?
Esses estão felizes, principalmente os moradores da região do Panambi, aquele braço do Morumbi, próximo a marginal, com grande concentração de condomínios de apartamentos com 7 vagas na garagem. Agora eles terão uma via que trará fluidez a MIL CARROS POR HORA, não é fantástico? Vai ficar mais perfeito se conseguirem o pleito de uma ponte exclusiva para eles fugirem ainda mais do caos criado por eles mesmo.
Muitos acham que eu exagero quando afirmo que a prioridade da nossa Secretaria de Transportes é a fluidez dos carros particulares e não a segurança da população. Mas não falo isso apenas com base na omissão dos agentes de trânsito ao trabalharem pela segurança dos ciclistas, nem nas atitudes explícitas da prefeitura que trazem riscos a todos, principalmente aos não motorizados. Me baseio também no que diz seus principais porta-vozes, como o próprio Secretário de Transportes por exemplo. “Há medidas para ampliar a segurança, mas não implantamos pois prejudicam o trânsito”
Evento “Circulação e Transporte”, realizado na Associação Paulista do Ministério Público, no dia 31 de março de 2009.
“Vamos priorizar a mobilidade, ainda mais nos momentos complicados de rush. Nessas horas, a fluidez é mais importante. É melhor o marronzinho coordenar o trânsito do que ficar parado multando."
Revista Veja
Não sei quanto a vocês, mas eu cansei de aceitar isso passivamente. Farei todo o possível para reverter essa situação, não quero correr o risco de ser assassinado por essa política de mobilidade urbana adotada por esses políticos, nem o risco de passar lá e ver uma bicicleta retorcida coberta com jornal.
Chega, já passou da hora da nossa população acordar para a carnificina que muitos, principalmente grande parte dos motorizados estão financiando e estimulando.