Toda ação gera uma reação. Primeiro a CET acaba com o acostamento Marginal Pinheiros, entre as pontes do Morumbi e João Dias, acostamento esse usado por ciclistas e pedestres para poder acessar a região do São Luis, Campo Limpo e Capão Redondo da zona sul de São Paulo. Quando descobri que a intenção da CET era criar mais uma faixa de carros “proibindo” a partir de então o tráfego de ciclistas e pedestres, resolvi escrever uma matéria em meu site para repercutir entre os cicloativistas.
Claro que isso causou revolta entre os cicloativistas. Para efeito de protesto e também para zelar pela segurança das centenas de ciclistas que passam por ali (numa contagem informal, registrei 80 ciclistas em uma hora, mesmo embaixo de chuva), inúmeros cicloativistas resolveram repintar os 2 km de acostamento, combinando uma ação para o dia 16 de abril no final da tarde.
A ação ocorreu até que com tranqüilidade, embora a curiosidade dos motoristas causasse uma lentidão um pouco maior que a normal. Digo normal, pois quem conhece a região sabe que é comum a lentidão ali. Não precisa pesquisar muito e você pode encontrar uma, duas, três, quatro ou uma infinidade de notícias falando sobre a lentidão na região. Ou seja, com ou sem manifestação sempre haverá lentidão ali.
Mas e a CET, o que fez? Claro que a empresa paladina, que trabalha na defesa dos direitos e da tranqüilidade dos motoristas particulares, achou um absurdo a ação, não demonstrou nem um pouco de sensibilidade com a manifestação dos ciclistas ameaçando-os até de multá-los, da mesma maneira que quis me multar por causa do WNBR do ano passado.
Antes que alguém diga que somos radicais, reclamamos sim junto a CET tentando impedir essa atitude absurda. Eu pessoalmente alertei a CET sobre a quantidade de ciclistas que por lá passam e que de agora em diante correrão sérios riscos de sofrerem acidentes, mas eles foram irredutíveis. Disseram que o ciclista tem que se virar e procurar outra maneira de se deslocar, já que a partir de agora será proibida a passagem de pedestres e ciclistas pela via. Infelizmente não disseram qual é a melhor alternativa para o ciclista, como eles fazem quando obrigam os veículos particulares a alterarem seus itinerários.
No dia seguinte a ação, fui até o local conferir a nova situação do ciclista. Na época do acostamento a situação já era complicada devido aos carros que insistiam em andar pelo acostamento, principalmente nos momentos de lentidão. Como os motoristas estavam errados, mesmo invadindo o acostamento eles acabavam nos respeitando, tanto é que não tenho notícias de acidentes ali naquele ponto. Mas entre o “vácuo” da extinção do acostamento até a ação de repintura, já estava muito difícil pedalar por ali.
Depois da pintura da “ciclovia”, no dia seguinte, era fácil notar como a maioria dos motoristas passaram a respeitar o acostamento, trazendo segurança aos ciclistas que por lá trafegam, como pode ser conferido no vídeo do começo da matéria. Pena que durou muito pouco.
No mesmo dia, a CET demonstrou sua eficiência, não só apagando a pintura que os ciclistas fizeram como já pintaram a nova pista onde era o antigo acostamento. Ou seja, ao invés da manifestação chamar a atenção da empresa que deveria zelar pela segurança de TODOS os veículos (bicicleta é veículo), pelo contrário, a atitude só reforçou a atitude mesquinha dessa empresa que não liga e nem nunca ligou para a segurança de todos que estão fora dos carros.
Exagero? Basta ver a quantidade de mortes que envolvem motoristas e passageiros, comparado com os demais modais. Enquanto as mortes de motoristas e passageiros vêm reduzindo desde 97 (682 em 1997 contra 281 em 2007) todos os demais modais só tem aumentado. Claro que essa política adotada pela CET é fruto da pressão que vem da maioria dos motoristas, que ilude essa empresa fazendo parecer que as pessoas que tem carros tem mais direitos que os demais. O pior de tudo é nosso governo aceitar essa pressão e adotar essa política que custa a vida de milhares de cidadãos.
Voltando a CET, a manutenção da idéia de criar a nova pista era mais do que esperada, infelizmente. Mas o que devemos fazer então para zelar pela segurança dos ciclistas já que nossa prefeitura só fala que gosta de ciclistas em época de eleição? O que fazer para mudar essa política que beneficia os automóveis particulares ante a segurança de todos os demais agentes no trânsito, como motoqueiros, ciclistas e pedestres? Até quando deveremos bater de frente com essa empresa que nos trata como insetos que só prejudicam seu trabalho? Quantas vidas essa política de mobilidade da prefeitura terá que custar?
Sim, vidas, pois é o que vai acabar acontecendo naquele trecho da marginal sem acostamento, uma hora alguém vai perder a vida sim. Principalmente porque muitos ciclistas pedalavam ali na contramão, pois consideravam muito mais seguro (realmente era mais seguro) do que pedalar na pista do outro lado do rio, sentido castelo, que não possue acostamento. Até eles saírem da rotina e se acostumarem com a pista no sentido contrário, o risco de acidentes são enormes. Isso sem contar nos ciclistas que ainda vão continuar pedalando na mão certa que estão muito mais expostos a essa violência.
A CET mais uma vez lavou as mãos, da mesma maneira que usou seu poder para enterrar centenas de quilômetros de projetos de ciclovias, usou novamente esse poder para impor mais essa derrota a ciclistas e pedestres. E pelo jeito vai continuar usando esse poder para tentar acabar com essa pragam, que os ciclistas estão se tornando para ela. Pois antes só incomodávamos quando morríamos e causávamos quilômetros de congestionamento.
Agora é diferente, estamos questionando e protestando diretamente contra ela, contra suas ações e políticas. Mas gostaria que os diretores dessa empresa soubessem que só questionamos porque ela ignora as leis brasileiras, pois do contrário seríamos os primeiros a defender suas ações pró vida, mesmo que isso custasse horas a mais no trânsito dos motoristas particulares.
Art. 24. Compete aos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua circunscrição:
II - planejar, projetar, regulamentar e operar o trânsito de veículos, de pedestres e de animais, e promover o desenvolvimento da circulação e da segurança de ciclistas;
Tirem suas conclusões, será que a CET esta cumprindo essa lei ou fazendo exatamente o oposto?