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Meses atrás um pessoal que participa da Bicicletada agitou uma viagem até Sorocaba. Estava chovendo e acabei desistindo, achei que nem ia rolar a viagem, mas alguns guerreiros resolveram ir mesmo assim, entre elas estavam a Marcia, até então uma ciclista novata que havia conhecido numa Bicicletada, mas sem ainda tanta afinidade.
Liguei para meus amigos na estrada e fiz eles mudarem de destino seguindo para Embu das Artes, assim poderia encontrá-los com mais dois amigos ciclistas. Essa foi a primeira grande aventura da Marcia, da Castelo até a BR-116 pelo Rodoanel, ela estava cansada e foi guinchada pelos nossos amigos.

Depois vieram outras viagens, pedalou para Sorocaba em setembro, Ubatuba em novembro e no último domingo na sinalização da via de Manutenção da Imigrantes. Isso sem contar nas inúmeras vezes que saiamos para beber, se divertir, ou pedalar livremente pela cidade, como ela fez durante a virada de ano com vários amigos da Bicicletada.

Ela não pedalava antes de conhecer a Bicicletada, Marcia era massagista e se deslocava de moto pela cidade para atender seus clientes. Daquela garota que precisou ser guinchada em julho, para a Marcia que foi com total tranqüilidade até Sorocaba em Setembro, houve uma grande mudança. A partir de então sua bicicleta passou a ser seu principal meio de locomoção e ia aos seus clientes de bicicleta, se necessário com um colchonete preso no bagageiro. Até uma Bicicleta Fixa resolveu comprar, para resgatar os primórdios da pedalada perfeita.

Ela também entrou para a Bicicletada incorporando seu verdadeiro espírito, o de contestar tudo que havia de errado e fazer algo para mudar. Ela mandou dezenas de emails para a Artesp, Policia Rodoviária do Estado, Ecovias, para saber o porque a bicicleta é proibida de chegar na praia. Já doou e participou de vaquinhas para compra de faixas, tinta para as bicicletinhas. Participava de diversas discussões, estava presente na maioria das ações que fazíamos pela cidade, sempre se doando, se entregando, pois  ela acreditava que poderia fazer a diferença.

Antes de se despedir de nós, demonstrou sua indignação na lista, a respeito de uma propaganda do Ministério da Saúde sobre mortes de crianças no trânsito, são 4 vídeos, um deles está logo abaixo.


link para os demais vídeos:
http://br.youtube.com/watch?v=eMvJQOwukBs&feature=channel

http://br.youtube.com/watch?v=fNdlRR9B4cI&feature=related

http://br.youtube.com/watch?v=-TFRVD_t4MA&feature=channel

Diversas pessoas contestaram essas propagandas ridículas, onde a culpa dos acidentes é sempre das vítimas, ou mesmo das crianças mas nunca dos motoristas. Segue a última mensagem dela:

Também não gostei. Principalmente do clima de fantasia para falar de "acidentes" de trânsito. Além de concordar que a campanha transfere a responsabilidade para o pedestre...

Sou a favor de campanhas impactantes, como aquele vídeo que alguém postou mostrando "acidentes" e questionando se eram acidentes mesmo.

E que aquele lindo texto da resolução 166 saia do papel e tenhamos educação para o trânsito nas escolas.
Abs,
Márcia


Essa mensagem ela enviou as 10:21, minutos depois deve ter saído para atender algum cliente. Apesar das ciclofaixas terem sido pintadas na pista a direita do ônibus, infelizmente ela procurava sempre andar na faixa da direita, dentro da pista do ônibus.

Em países civilizados, cidades como Londres por exemplo, as ciclofaixas são dentro da faixa do ônibus e nem por isso os motoristas passam por cima de quem esta a frente deles.  Ela também andava na faixa preferencial, quando foi ultrapassada por um ônibus que não teve paciência de esperar e fez a manobra que mais mata ciclistas em São Paulo, a ultrapassagem irregular, sem respeitar o limite de 1,5m como manda a lei e como ela pedia em sua camiseta nessa viagem.



Graças a essa imprudência e esse desrespeito, nossa amiga se foi. O motorista está com a “Consciência Tranqüila”, pois não pode fazer nada.  Claro que ele esta contando que esse assassinato se transforme em acidente, como ela disse em sua última mensagem, para  amanhã voltar a linha normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Outra coisa triste é ver essa e outras matérias onde “comentam”  o acidente “noticiam” o trânsito que ele causou. Caramba!!!, Se há uma pessoa morta, claro que há dificuldades no trânsito, para que dar ênfase no tamanho dele? Para que citar? Será que nossa imprensa não percebe que, com isso ela só colabora para a desumanização dos nossos motoristas? Acidentes são tragédias, são momentos de reflexão, devem servir principalmente para que os motoristas saibam do tamanho de suas responsabilidades quando carregam essas máquinas motorizadas de várias toneladas. Não apenas para noticiar é que um pedaço de carne no chão é que esta atrapalhando sua “fluidez”.

Eu perdi uma amiga, uma guerreira que entrou nessa faixa de gaza que é nossa cidade, com uma arma incapaz de tirar a vida de alguém. Mas São Paulo perdeu muito mais. Perdeu uma pessoa que doava seu tempo para tentar melhorar a vida do próximo. Perdeu uma pessoa que abandonou o carro, pois ela sabia que pedalando, colaborava para o bem de todos, não apenas dela. A cidade perdeu uma pessoa que fazia e não que espera acontecer.

Hoje foi um dos piores dias da minha vida, durante essa caminhada no cicloativismo, sempre tive medo de perder uma pessoa próxima para esse trânsito assassino. A Bicicletada cresceu demais, conseqüentemente o meu número de amigos também e infelizmente o que eu temia aconteceu. Fiquei muito apreensivo pela sua família, tinha medo de ser acusado de te-lá estimulado a viver esse estilo de vida, que por fim acabou tirando sua vida. Mas quando chegamos ao IML, sua tia nos disse: “Vocês fizeram a Marcia muito feliz”. Apesar de tudo, dessa perda, não poderia ter ouvido coisa melhor.

Pois bem Marcia, você também me fez uma pessoa muito feliz. Todos os momentos que passamos juntos foram maravilhosos, sua inteligência, coragem e altruísmo motivaram não só a mim, mas muitos amigos em comum. Sua passagem pela nossa vida, apesar de curta, não foi em vão. Vamos honrar seu nome, sua ida serviu para nos motivar e continuar lutando para que outras pessoas ou famílias não sejam obrigadas a passar pelo que passamos. Você não é uma Martir, não queremos mártires, mas queremos sim pessoas inspiradoras como você foi, como esta sendo e como sempre será.

Beijos e muita luz nessa sua nova etapa de vida, você já deixou muitas saudades.

André Pasqualini


Nessa quinta, 15 de janeiro de 2009, a partir das 18h00, na Praça do Ciclista, haverá uma homenagem a Márcia Regina de Andrade Prado, com a presença de familiares. Será uma homenagem e não um protesto. Será a oportunidade de darmos nossa força para a família e dizer que faremos de tudo para que sua passagem pela terra não tenha sido em vão.

Já na sexta, dia 16, haverá uma Bicicletada extra, em memória da Marcia. Para nossa tristeza, infelizmente uma Ghost Bike vai aparecer na Paulista, para lembrar a todos os motoristas, que a via é de todos. O horário e local será o de sempre, Praça do Ciclista, a partir das 18:00.


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